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sábado, 19 de novembro de 2011

Instrumentos


-Instrumentos-

Todo Ser que impunha instrumentos os quais
deles temos,
Sensibilidade
Sente o vento que distrai
a colher, o copo e o cartão...
Referência do nada,quiça de tudo
que amarra o cego faz tez prateada.
O copo da forma ao liquido...
sou aqui escravo lúcido do verbo
tropeço..
Lente que sente
Você ausente

Hugo Guimarães e Naldo Preguinho

18-11-2011

domingo, 6 de novembro de 2011

Vazio


Esvaziei-me de mim quando quis me entender
sozinho ,calado,olhos na janela,O mar a se nascer
uma fresta dentro do corpo pela janela da alma
uma pergunta solitária,na ânsia de ser resposta

Das possibilidades ,o incerto, o certo, o correto
mas, sobretudo o que sua alma falava a si,
naquele momento onde até olhar pra frente era como
se espelhos espalhados o confundisse com o que passou
e agora com o que virá

Um estranho medo o tomava naquela manhã
e ao mesmo tempo uma energia boa o arrepiava os braços
Ao toque dos acordes naquele velho violão .Ele sentia
pra alem do que se via, um ciclo se renovar

haveria poesia,vento,e gás para se continuar
o sentimento antigo batendo a porta a deslizar
o olhar a vida como só quem olha a propria vida,
sabe das propriedades desse singular observar

Havia uma esperança,uma crença,uma lágrima
dentro daquele corpo que se esvaziara de si
naquela manhã onde pássaros e sagüis
o tomaram a atenção pela janela de dormir.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Parte 2- Dele com a vida



Achava que a vida era mesmo engraçada, estranha, misteriosa do inicio ao fim,e não se preocupava muito com o que iria acontecer amanha. Tremia o corpo imaginar o daqui a pouco.Aquela festa, aquele encontro,aquela viagem,aquele churrasco,era o que o pulsava nas veias, o ‘logo-logo’, não amanhã,mas ‘o evento’,’A coisa ‘, a confraternização.
Sim, ele gostava de confraternizar,mais do que todos os seus amigos.Festas,rodas de viola,churrascos,almoços,lanches,papo jogado no ar,sim,ele gostava,mais do que tudo,ouvir,estar com os próximos,rir,fazer piadas,cantar,debochar,ironizar.
Para ele a vida era mesmo uma grande ironia,sarcástico ao extremo era difícil,por vezes,saber o que era verdade,o que era de sua invenção, o que era uma direta ou indireta,se falava a um ou se falava a outro. Falava mesmo ao vento, de forma torta e divertida, para que a própria pessoa- a quem ele queria chegar nesse dizer - se desse conta de que aquilo era para ela,e muitas vezes conseguia.
Poetizada,escrevia,não tinha tempo certo e nem motivo pra nada,era olhar,pensar,se arrepiar com o vento,com aquela lembrança gostosa da adolescência,de criança,daquela pessoa,e pronto, já estava ele a escrever,sem saber mesmo o que iria nascer,sem reparar,pulsando,forte,até o fim e assim terminava,nascia.
A vida era uma grande piada,e ele,de tudo isso ria, não via muita alternativa e,de uma forma ou de outra,conseguia ser feliz pelo ‘descaso e caso’ com a própria vida.
se alimentava todos os dias do que ‘não era planejado’, era como se,assim, conseguisse levar a vida com mais surpresas,as coisas aconteciam,o mundo ia,as danças,as coisas levando,remando,e sempre chegava a um lugar bom,por fim,achava mais uma vez graça e se questionava como as coisas, de um jeito ou de outro, se encaixavam com o tempo, tomavam forma ,sem pressão,as coisas iam pro seu devido lugar, e ele se perguntava se era Deus isso.
Ele se achava um cara de sorte,sem jogar dados com o universo,sem ser o ‘padrao certinho’,sem muito esperar,ele era um cara de bem e as coisas vinham ate ele.Era sorte na vida e azar em jogos,mas no jogo sem apostas,esse que você joga sem saber,esse que ‘te jogam dentro’ e você não sabe o que fazer,onde esta o macete pra passar de fase,esse jogo,da vida,ele jogava todos os dias e ria sozinho quase que toda manhã,Estou vivo!
Avançar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Parte 1 – DELE COM ELE MESMO



Aquela noite,lá pelos 30 anos, as palavras ficaram mesmo no vão,bem entre as coisas,ali,perdida nas preposições do momento da vida(a ,ante,após,até,com,contra..) ela se calou.a Voz seca e grossa tentava conversar,em vão, com uns olhos banhados n’gua a observar os pequenos barcos,distantes,naquele mar que reluzia a lua naquela noite cheia,fria e tenebrosa.
Era como se ele procurasse,bem distante daquelas águas uma resposta para sua vida,seus desejos,seu amor, sua aventura de ser o que ele não conseguia ser,e assim se questionava.
Se era o trabalho,o lugar, a mulher que amava,o tempo,a falta dele ou o profundo se afogar neste e,mais uma vez, não conseguia se dizer nada,alem desse acaso escuro e estranho que sempre o tocava e incomodava.também tinha a angustia que nascia na rotina daqueles dias e o matava bem aos poucos,como quem tirava todo dia um palito daquela castelo de fósforos,grande,aparentemente forte e torto.Que tombava gradativamente e so ele percebia.
Era um ser animado,dentro de todo seu humor sarcástico e descontraído também havia um olhar sereno e bucólico para algum cerne existencialista desse mundo,dos sentimentos e todas as formas de demonstração disso.
Ali,sentado,sozinho,quieto,vento cortando o rosto,no frio,a noite,a falta de um abraço,de uma voz que pudesse dizer,esclarecer,dar rumo,dar musica para aquela dança comedida,ele fecha os olhos,leva o copo de licor na boca e engole uma vontade de florescer,escrever,desabrochar,poetizar,por aqui ser,o que se está,sendo,escrevendo,no fundo sorrindo desse curioso,por se fazer,continuo gerúndio da transformação.Quem estou sendo então?

sábado, 30 de julho de 2011

Especial Manhã


Era um dia qualquer,como todos os outros normais,de acordar cedo,se banhar,tomar o café e se dirigir para a labuta.Plena quarta feira,sol forte naquela manhã e,para mim, um dia especial.Já,por essa manha, eu pensava na vida, na minha trajetória, tudo que havia feito ou deixado de fazer até aquele momento, enquanto tomava meu café da manhã.
Ao chegar no trabalho,ainda no estacionamento, no desligar do motor meu celular toca.
Meio atrapalhado em pega-lo dentro da mochila no banco de trás,rapidamente,já no ultimo toque.
-Alo.
-Bom dia meu filho.
-Opa, diga ai Gudão. – como eu chamo meu pai-
-Tudo tranqüilo por ai? Já esta no trabalho?
- Sim,cheguei agora, tudo na paz.
-Então Gudinho, tem uma pessoa aqui do meu lado, eu estou no largo da carioca,aqui no centro do RJ, e tem essa pessoa aqui querendo falar com você.
Antes que eu pudesse pensar em quem ele havia encontrado e,sobretudo, querendo falar comigo, ouvi um som ao fundo familiar, como um contra-baixo numa melodia que aos poucos aumentava.Em seguida o som de uma bateria dando o ritmo ao contra baixo, e segundos depois,mais alto,o lindo som de um SAX.(que tanto amo)
E junto com o som que vinha daquele tumultuado lugar que bem conheço,contra baixo,sax e bateria tocaram o mais lindo,e ao vivo, “Parabéns pra você” que já pude ouvir.ali ,sentado no banco do carro,parado,olhando para o pára-brisa com uma cara boba,corpo arrepiado,olhos marejados,ouvia a famigerada musica,só que instrumental, meio Jazz, Blues e no fim uma guitarra solo fazendo o “...muitas felicidades, muitos anos de vidaaaaaaaaaaa”.
- Alo filho ouviu ai?
-Sim Pai -emocionado-
e antes que eu pudesse agradecer meio que ainda sem palavras...
- ta bom então,são uns artistas de rua aqui em frente ao metro,muito bom né? Ai,veja você,coincidência, estavam tocando essa musica bem no dia do seu aniversario.
-“ahram” pai, e eu sou o filho do “bozo” com papai Noel.
-Ham? Quer ouvir musica de natal agora?
-Nãoooooo Pai porra,é que...
-To brincando.Beijo no coração gudinho, tenha um ótimo dia,especial dia,deixa eu ir, tenho que “acertar” uma merreca com a banda aqui.
-Mas não foi coincidência cara?
-é..de vez enquanto eu costumo causar uma – risos e no fundo tocando pantera cor de rosa-
- tu tu tu tu tu
Que presente gostoso,pensei comigo,enquanto ia pra minha sala.Que presente, que coisa, que parada,que,que,que,que....que poesia! =D

domingo, 12 de junho de 2011

Porta Aberta


Era como se o frio entrasse pela porta
Que deixada aberta,esquecida, trazia também lembranças
Entrava o vento frio , a musica distante,a poeira que não se via
Na porta esquecida aberta

Entravam sonhos na madrugada
Bichos no pesadelo
Entravam sons e algo de desepero
Apego?

Haveria coberta para se proteger?
Cobertor para se aquecer?
Musica para relaxar?
E fome para emagrecer?

Era estranho e novo o não perceber
A porta esquecida aberta,descuidada
Que mais poderia entrar por ali?
Sabia-se lá?

Ao amanhacer, o sol,sem pedir permissão
Pela mesma porta esquecida aberta
No mesmo amanhecer
A imagem do mar,próximo,azul e verde belo
Que também não pedia permissão e entrava
Mas tão bem recebidos foram com um sorriso

Nossa, a porta esta aberta
Que perigoso e delicioso
Na noite e no dia
Sabe de uma coisa?
Vou sair
Mas tranco a porta
Essa surpresa a cada amanhecer
É somente minha e egoista
Com a porta, a partir de agora
De propósito
Esquecida aberta
Para novos
Dias
Novos mares
Sóis
Nóis

segunda-feira, 30 de maio de 2011

TRILHA DO DIA



Na trilha sem pensar da vida,
Subida
No Mato Cheiro e cor
Vontade
Com Bichos,Cobras e ar
Liberdade
Com água corrente , grito ,grilo
Purificação
é um misto de medo e desconhecido
descida e Paixão
'a vista, longe um peito, pombo sem asa
de azul clarão
Na nuvem esconde o alarde de borboletas
cheiro e mistério
Pai,filho,sete mães de quedas
na Gamela da fome,sacia
em cima de um brilho
Barba
experiência de vida e olhar
pois aqui ninguem duvida,acolhida na suplicada
assim vem chegando o leve sono
sobre as palavras do dia com a cabeça pseudo-insana
no sana.
descanso
no
pranto da natureza.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Fazendo Pensar



A vida sempre me presenteia dentro de uma caixa escura, com laços coloridos e sem sentido, teria me dito?
A vida sempre me corta a régua toda vez que penso em medir, me tira as vendas toda vez que quero cegar, me abraça quando penso em correr, me empurra quando quero estacionar.
Ela me manobra quando acho que o melhor é parar, e me freia quando tento voar.
Vem mesmo com uma embriagues de sorriso e pulsão do novo toda vez que abro os olhos e penso no dia que renasce gostoso e leve pelas frestas da janela escura do meu quarto.
É uma vontade que se perde na vontade do mundo, é estranho percebe-se sem controle de qualquer coisa, embora ache, dentro de seu ser, um controle de sua vida, um peso,um tamanho, uma forma. Mas tão disforme é tudo isso,
Tão obscuro o gosto do sorriso
É leve o pesar do pulmão do mundo que respira por si,que te traga todo dia num prazer de que só quem traga tem e te assopra lentamente para o novos despertares,olhares,entregas e pensamentos sortidos no corta luz do jogo da vida cheio de brisas.


Hugo Mendes
27-06-09

Feira de minha vida



Na feira da minha vida se vendia de tudo
Tinha de arroz a sabugo
Peixe bonito,frutas assustadas e carne com medo de ser assada

Na feira da minha vida se vendia ate gente
Nas vitrines da moda os produtos sorriam
Meio sem vida,meio sem graça,há desgraça

Na feira da minha vida se trocava de tudo
De relógios a ventiladores de calor humano
Trocava-se sapato por pano
Ônus por bônus

A feira da minha vida não tinha dia certo
É bem dentro do incerto que tudo se fazia
As barracas se montavam rapidamente
Um amontoado de gente trocando de tudo
Era prosa por poesia desnuda
Era cabelo por perna nua
Era pedaços de sol por fragmentos de lua

Tudo que imunda,afunda
Na feira da minha vida não tinha regra
Não tinha lei e nem espera
Era querer e fazer
Tem rolo?

Rodo?
Vassoura serve?
Quebra o galho,tem sabão?
Tem cloro com azeite,serve não?
Ta na mão

tem troco?
Depende do desenrolo
Que rolo?
Esquece o pão
Com desconto?
Ta feito

Heita feira boa

(Com Lembranças da Feira de Areia Branca,Belford Roxo- Rio de Janeiro)

Eu e meu coração?!


(trilha Tucuns-Buzios-RJ)
==========================
Sem noção, sem tempo, contextualizado, emocionado, precavido, mordido, sorridente, alegre, inesperado, aguardado, adjetivo, esse é o meu coração.
Assombrado, inesperado, tolo, forte e impulsivo, esse é o meu coração decidido.
Beijo a lua e acaricio o tempo frio que toca meu intimo nos momentos de reflexão,
É tempo de vida, de aguardar sem dor, de executar sem temer, de planejar o inesperado, de desfazer planos árduos, de ser o q se é , de expressar-se não só pela fé, mas pelo que se é.
É ver a vida como uma continuação, é trocar o sim angustiado pelo não acalentado, e o amar reticências desta e ver nas interrogações das esquinas do flerte, exclamações de certeza e leveza.Deixo a musica que por mim fala, tocar todo meu ser, sorrir, chorar, tremer...
Deixo o cheiro da tua lembrança que vem no ar, nesse perfume doce me beijar,deixo seus cabelos sentirem saudade dos meus dedos, e sua face doce brincar com a minha no sereno úbere da madrugada que nos esquenta.
Esse sou eu, trovador solitário, pensativo e não cansado,esse sou eu, um sorriso desconcertado, alegre, viril e inesperado.

terça-feira, 15 de março de 2011

Conto da Bruxinha


Sou filho caçula, raspa do tacho, ‘última gota’, temporão, sabe como? Somos um total de cinco irmãos, dois homens e três mulheres. Meu irmão com idade mais próxima tem 10 anos a mais que eu. Confesso que isso me serviu para muita coisa boa na vida. Primeiro, por ter influência nas coisas boas da vida. Boa música, poesia, leitura, amor, ‘dicas para se dar bem’, sem contar todo o zelo, carinho e ternura. De uma forma ou de outra, tive bastante gente para me ‘espelhar’. E para isso, nada melhor que irmãos. Segundo, por que tinha acesso aos amigos deles - mais velhos, claro! - ainda novo, e isso também era muito bacana... Poder participar, conversar, observar... (Acho que muito do meu jeito de observar vem daí. Não tinha muito a dizer e era envergonhado, então os observava quieto. Idéias, poesias, pontos de vista...)

Na época, duas de minhas irmãs, que ainda moravam conosco, tinham inclinação para religiões esotéricas. Lembro-me de que quando eu era novo, uma delas viajou para a Índia. Quando voltou, seu quarto ficou tomado por ‘coisas sinistras’ pra minha cabeça de criança...
Era imagem de Buda sentado em cima de um monte de moedas e segurando incenso; era elefante de ferro virado de costas pra porta; era essência de baunilha, pote d’água do Rio Gandhi. Orações, livros com imagens hindus, xamãs, receitas... Tinha até livro dos sonhos. E também uns tecidos indianos pendurados, finos e coloridos, uns desenhos medievais, estrela de não sei quantas pontas na parede, etc.
Minhas irmãs frequentavam religiões que usavam fantasias e defumadores, que faziam danças estranhas... Era tudo muito misterioso e eu gostava disso.
. Minha avó sempre foi espírita e, de uma forma ou de outra, ela e minhas irmãs sempre tinham ‘figurinhas para trocar’, nesse sentido.
. - Vó, acho que fulana tem inveja de mim, ta de ‘olho grande ‘nas minhas coisas... - dizia uma delas.
- Coloca o olho de boi atrás da porta, corta a cebola em quatro pedaços, amarra no pano de prato e enterra no quintal. – Respondia minha avó.
Hoje em dia, quando ouço o ditado “Quem não aguenta com mandinga não carrega patuá!”, sempre lembro essa época.

Era aniversário de uma amiguinha da rua. Ela fazia nove anos e fomos convidados. A festa foi estilo Haloween, cheia de morceguinhos de papelão, decoração preta e roxa, máscaras, capas, dentes de vampiros e músicas de terror, além de Xuxa, claro! Foi bem bacana... Bolo de chocolate, refrigerantes, brincadeira da cadeira, da estátua, da múmia e, por fim, ganhamos de lembrança uns monstrinhos de plástico e umas bruxinhas. Dessas coisas que se coloca na ponta do lápis - nem sei se existe mais isso. Fiquei p... da vida quando fui pegar o meu e não tinha mais do monstro, só tinha da bruxinha... Peguei o lápis com a bruxinha na ponta e fui pra casa de mau humor.
Usei aquele lápis por algumas semanas, e com ele fiz os deveres da escola todos os dias à tarde, após o almoço, na mesa da sala de casa.
Várias vezes tentei, em vão, arrancar aquela ‘coisa ridícula’ do meu lápis, mas não conseguia. Num desses dias, fazendo dever, não conseguia resolver uma questão de Matemática e, nervoso, bati o lápis e o joguei na mesa. Depois me levantei e fui pegar água na geladeira.
Ao voltar, peguei o lápis e tornei a fazer o exercício. Pra minha surpresa, a tal bruxinha tinha sumido da ponta do lápis. E tive um surto, um misto de alegria (porque não queria mais aquilo) - e estranheza (onde foi parar aquele troço?). Procurei a sala inteira, olhei no chão, na mesa, na escada e nada! O treco simplesmente sumiu...Semanas se passaram e fui esquecendo aos poucos do lance do lápis.
Um dia, chegando da escola, entrei em casa e não vi ninguém.
– Mãããee! Vóóóó! Shiiiiirleeeey! Jaaaannn!
Ninguém me respondeu... Passei pela sala, olhei quarto por quarto e estava tudo vazio... Sala de jantar vazia, cozinha vazia... Subi, olhei nos dois quartos e não vi ninguém. Fiquei meio assustado, mas fui pro meu quarto trocar de roupa enquanto comia uma banana. Desci e fui pra sala, mais uma vez procurando por alguém, mas ninguém me respondia... ‘Sim, a casa está vazia’, pensei. Deitei no sofá, fiquei algum tempo olhando pro teto e, antes de ligar a TV, comecei a escutar vozes cantando bem longe, tipo mantra...
Sentei e fiquei tentando identificar de onde vinha aquele som. Levantei e fui caminhando lentamente na direção copa. O som do ‘cantigo’ foi aumentando. Consigo identificar que vem da cozinha e caminho pra lá mais rápido. Quando chego lá, não tem ninguém, mas o som está alto... Som de mantra... De oração... Já entrando em desespero, gritei:
. - MÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEEEE!!!
. - Daí ouço a voz da minha irmã me chamando:
. – Xiiii!!! Huguinhoooo! Estamos aqui atrás no quintal... Silêncioooo!!!
. Putz! Pirei!!! Fui pra área de serviço e na porta, que dá vista pro quintal, vi minhas irmãs e minha avó agachadas no chão, de mãos dadas, em forma de círculo. Dentro do círculo, uma pequena fogueira, um copo d’água e uma vela. E minha avó gritava algumas coisas macabras, tipo:
. – “ZRATUSTA”“Tá quebrado todo o mal!”, “Sai daqui, alma pobre de luz!”, “nome de Jesus Cristo”...
Elas pediram pra eu me afastar e eu voltei pra sala - bolado, claro! - enquanto elas continuavam o ‘ritual’.
Liguei a TV, fiquei mais calmo por ter descoberto de onde vinha o tal som e também por tê-las encontrado. Ao mesmo tempo pensava:
- Cara, só tem maluco na minha família...
Estava inquieto... Não consegui. Dei a volta pela garagem, me escondi atrás da pilastra e fiquei observando. Fui, na ponta dos pés, e cheguei bem perto. Elas estavam de olhos fechados rezando o Pai Nosso. Eu, mais do que curioso para saber que diabos era aquilo que pegava fogo. Minha avó, antes que a ‘coisa’ acabasse de derreter, jogou “água benta” em cima. Aí elas soltaram as mãos e disseram:
. - Acabou!!! Está pronto!!!
E me viram...
- Huguinhoooo, não disse pra você não ficar aqui, menino? - Disse minha avó.
- O que é isso aí, vó?
– Nada, filho... Tentaram fazer maldade pra sua irmã, mas já quebramos o feitiço!
– Maldade??? Feitiço???
- Nada filho! Fica tranqüilo... Dá um abraço aqui na avó! – Falava ela com os braços abertos -
Abraçado com ela eu olhava praquela coisa estranha no chão e pras minhas irmãs com lágrimas nos olhos, emocionadas.
- Que feitiço, vó???
- A gente chama isso de “Vudu”... Fizeram Vudu pra sua irmã... Por isso ela sentia essas dores estranhas! Achamos o boneco escondido atrás da moldura da foto de sua falecida avó, mãe de seu pai.
- Nossa, que sinistro vó!
- Pois é... Mas agora “quebramos o trabalho”... Está tudo bem, vamos lá pra dentro, o almoço já esta pronto...
Antes de entrar, curioso como nunca estive, abaixei, olhei bem de perto e vi, derretido, o resto de uma boneca com chapéu preto e roxo.
– HEEEEIIIIIIIIIIIII!!! Isso é a boneca que estava no meu lápis, vó!!! – Gritei, enquanto elas caminhavam pra cozinha
– Como é que é? Que brincadeira é essa Huguinho?
- É sim!!! Olhem aqui, aquela boneca que ficava no meu lápis, que eu perdi na sala... Aquela que eu ganhei no aniversário da Giovanna... Pô... Nossa, vocês queimaram ela, meu Deus!!! (naquele momento eu pensei que elas não eram muito boas da cabeça não,era inacreditável!)
Minha irmã veio, tomou a boneca queimada da minha mão e disse, confusa:
– Nãããooo!!! Podem olhar aqui... Ela tinha até óculos iguais aos meus, mesma armação e tudo... O formato do nariz... Tudo! Sim, era eu!!!
. – NO CASO, você é uma bruxinha? – Perguntei, mais confuso ainda
– Não! Claro que não, Huguinho!
Não aguentei e repeti, impaciente:
– Isso era a ponta do meu lápis, da festa de Haloween da Giovana, que eu perdi na sala quando bati com ele na mesa, merda!!!
- Não xinga Huguinho! E como isso foi parar atrás da foto da falecida avó, na parede? – Perguntou minha avó.
- Eu lá que sei, vó?!quem mexe com isso “de feitiço”são vocês -respondi.
Minhas irmãs só fizeram rir,mas rir de ficarem vermelhas,sem conseguir mais falar, apenas as gargalhadas apontando pra “Ex ponta do meu lápis” toda derretida,minha cara de bobo e minha avó com uma cara meio de “paisagem”
- Eu não acredito que tocaram fogo nisso,minha mãe sabe disso?
-Ninguem pode saber disso Huguinho, só a gente, ta? Por falar nisso, vamos esquecer todo esse mal entendido ta? Vem,vamos pra dentro.

-Mas e agora que descobriu que não era nada desse tal de ‘Brudu’
-VUDO meu filho
-Então,mas e agora que sabe que não é mais?? Vão ter que fazer “outro treco desses ai” só pra desfazer o outro Né?
Minha irmãs rindo sem parar,eu sem entender direito,entramos para almoçar,minha vó dizendo para que aquele episódio não saísse dali,ninguém mais poderia saber,etc..
Bom, não só a minha família ficou sabendo, meu pai e meu irmão ficaram zoando por um bom tempo minhas irmãs e tudo que fazia alusão ao caso:
-Pai , tem uma lagartixa seca morta atrás da porta do banheiro
-hiii vê lá Hugo,deve ser o tal do ‘vudu’ de novo, vê com quem esse se parece,reza e toca fogo – dizia rindo –
-FERNANDO VOCE BRINCA COM COISA SERIA – dizia irritada minha avó pro meu pai
A família toda soube do fato,os amigos das minhas irmãs,as amigas da minha mãe,veio gente pessoalmente pra saber, pra querer ver a ‘maldita’ bruxinha queimada.(que eu não queria jogar fora),queriam saber se tinha semelhança mesmo com minha irmã,onde vendia uma ‘sem estar queimada’só faziam rir,motivo de chacota total no bairro.lembro-me,ainda,anos mais tarde, na época inicial do funk,sempre lembrávamos desse episodio quando cantávamos na rua:
- Boneco de pano, macumba ou VUDU,quem não for da RAÇA FLA...... VAIIII TOMAR....
Seja lá como tenha sido,mas sei que funcionou, não lembro mais da minha Irma continuar “sentindo aquelas dores” que,supostamente viriam do boneco,tempos depois largaram o esoterismo,mudaram as “amizades ruins” mas sempre respeitavam os conselhos de minha avó.
-vó a senhora viu o brinco de ouro,aquele de argola grande? Já procurei tudo -perguntava uma de minhas irmãs
-já pediu pra “São longuinho” filha?
-já!!
-Já deu os três pulinhos?
-putz,esqueci,pêra ai – pulou 3 x
- Agora volta a procurar que com certeza você vai achar
E não é que achava mesmo? Até hoje eu,já adulto, também faço isso e também sempre acho.Tomo boldo pra enjôo ou ressaca,não deixo o chinelo de cabeça pra baixo,evito dormir com a cabeça “virada pra rua”, entre outros tantos ensinamentos antigos que minha adorável avó nos deixou,heita saudade.
Guarda chuvas aberto dentro de casa? Nem pensar,dá azar! :D

Hugo Mendes Guimaraes
12-03-2010

segunda-feira, 14 de março de 2011

Do pensar Noturno



A cigarra canta rouca no quintal escuro
Coberto de sereno da estação passada.
O olhar para as montanhas que so me mostram
o quão belo e perfeito é tudo isso que deus formou
Esse cheiro de vida e Mato que te toma sem pedir licença,
corre por todo seu corpo ,pulmão,coração,narina e nariz,
sorriso e atriz te faz ser,
assim,cantado e encantado
como o singular da vida nas esteiras do sentimento
e poesia que te tomam
toda vez que seus olhos encontram um fugir depressa
de si e de seus pensamentos por toda simplicidade
tão bem complexada dentro de um gosto de mar e uma vida por se observar.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

INFANCIA E VALORES - 12/04/2006 -


INFANCIA E VALORES - 12/04/2006 -

- Vai ficar me empurrando Rodrigo ? coe?-Disse o menino de aparência de 10 anos de idade a seu irmão mais velho que brincava de judô, tentando jogá-lo no chão-
- Para Rodrigo, coe? Vai pagar 45,00 na minha bermuda?, 70 conto na minha blusa e 55,00 no meu boné se rasgar minhas peças me jogando no chão?Qual foi ‘neguinho’?
O irmão riu e disse meio que desapontado a o colega do lado
-Olha só parceiro, o maluco ta mais preopado com as roupas de marca dele que vão rasgas do que com o tombo que ia levar,só pensa nisso,impressionante os valores que vão se criando.
Enquanto isso o irmão menor pegava o skate e ia ‘surfando’ no asfalto ate o amiguinho, da mesma idade, do outro lado da rua, que usava o mesmo tipo/estilo de roupas desse,até o boné era igual,só mudava a cor.

Estava no meu bairro numa tarde de quarta feira, em frente a uma locadora esperando meu amigo entregar seu filme, enquanto assisti calado esse dialogo dos irmãos.
Penso que os valores que formamos vem exatamente daí, e me recordo, por exemplo, que não tive essa criação, não me importara com marcas, embora visse sempre na escola onde estudei esse mesmo tipo de menino, que usavam o antigo redley preto, calca da phelipe Martin e blusas da cyclone.
Eu mesmo nunca pressionei meus pais para comprarem nada pra mim, para participar desse grupo dos ‘amiguinhos da escola’(eu devia mesmo ser estranho), mesmo por que,definitivamente eu era um peixe fora d´água .Também gostava mesmo era dos amigos da minha rua, do meu bairro, que sujos brincavam ate altas horas na rua ( umas 22:00 hs) de pique esconde no quarteirão todo, e nos aventurávamos no nosso pequeno exercito de recrutas,onde o quartel general era na minha casa,no fundos do quintal,em cima da árvore.
Eu me sentia bem a vontade dentro do meu nicho, meus amigos da rua,aqueles q ficavam horas brincando de boneco, luta livre,corrida de carrinho de rolimã , telefone de lata ( aquele q amarrava um fio enorme de barbante).
Lembro-me que certa feita um menino- que o pai tinha melhores condições-, deu a esse um navio enorme, mais de 1 metro e meio, cheio de ‘papagaiada’, com motor e controle remoto, ascendiam luzes, farol, era realmente enorme e pomposo.
Todos os meninos ficaram fascinados, inclusive eu que tive a brilhante idéia de ‘testar’ o brinquedo dele. já que não tínhamos piscina em nossas casas, onde mais por esse ‘bichão’
-apelido que demos ao navio- pra navegar, senão no valão aberto que tínhamos no bairro?

Ele resistira por algum tempo ,mas sofrendo pressão de todos os amigos , cedeu.
Fomos todos correndo para o inicio do valão, que cortava quase todo o bairro, lembro-me que havia pontes em todo seu comprimento, de 20 em 20 metros.
A idéia, então, era por o navio no inicio do valão, e pegá-lo pela ponte, 20 metros a diante, enquanto somente o dono do navio ,(teoricamente, isso ajudou a convence-lo), iria com o controle remoto brincar de direcionar as pás do navio,fazendo ‘zig zag’ nas águas sujas do esgoto ate resgatá-lo na ponte.
Tudo pronto ,lá estávamos , eu , reco-reco, puruca,azeitona,digão,papel , mochila e Fabiano com seu enorme navio.
Puruca e azeitona desceram com cuidado e colocam o bichão no ‘mar’, Fabiano então começou a acelerar e o ‘bichão ‘seguiu reto.Fomos acompanhando paralelos ao valão vendo aquele ‘titanic’ abrindo águas, girando, desviando dos sacos de plástico e garrafas e o sorriso estampado no rosto do Fabiano quando ‘papel’ GRITOU, já tomando o aparelho das mãos dele.
- PRONTO FABIANO , me da A PORRA do controle é minha vez.

Fabiano irritado :
- Não vou dar P...nenhuma cara, o navio é meu e nosso acordo foi esse, só deixei colocar ai dentro por que vocês disseram que só eu ia controlar e depois me ajudavam a limpar ele e guardar na caixa.

Fabiano era realmente o mais bobo dos parceiros, o único que cresceu tomando ‘danoninho’,água mineral com gás,chinelo caro, carros de controle remoto, era,de fato, o mais mimado da turma,estudava na melhor escola, quase não xingava, e vivia querendo nos ensinar a jogar xadrez.

Iniciou-se uma briga entre Fabiano que e ‘papel ‘pela posse do controle remoto, puxa dali, pula de cá, puruca e digao vieram tomar da mão do garoto,cairam no chao, e eu estava na ponte gritando.
- ALOWWW PARA COM ESSA PORRA, vem pra cá me ajudar a pegar o navio que ta chegando, CUIDADO COM O PNEU MALUCO.

Acho que eles não ouviram, o navio acelerou descontrolado e ,antes de chegar a ponte, bateu de frente no enorme pneu de caminhão que devia servir de casa de rato.
E eu gritei
- FUUUUUDEUUUU!!!!!!!!!!

Assim que bateu, e após meu grito, todos olharam pasmos pras águas sujas e viram o nosso
‘titanic ‘tombando e afundando, não como o próprio navio ,no caso lentamente,mas como um prego na água,rápido e ’pluft’.
A cara do Fabiano, coitado, correndo e chorando ate a ponte.
- Me ajude, me ajude , meu navio, meu pai, meu Deus ,Jesus,o que eu faço?eu vou morrerrrrr!

Nossa operação de resgate não foi das mais eficientes.Pegamos o bambu na casa do digão que tiramos escondido o varal da mãe dele e fomos pra lá tentar levanta-lo. Fabiano só fazia chorar, sentado com a mão no rosto,enquanto eu e os parceiros ficamos ‘futucando’ o fundo do valão, que parecia ter mais de 1 metro de profundidade.
Nada achávamos, senão lodo, coco, sacos plásticos e rã (como era bom caçar e comer rã, mas isso é uma outra historia).
-Ta cheio de rã hoje huginho,mais tarde a gente volta pra pegar,tua vó faz pra gente?
-perguntou puruca pra mim-
-calma ai parceiro,vamos procurar o navio do muleque,depois a gente vê isso de rã.-disse rindo-



Nenhum de nos se atreveu a entrar naquela imundice pra procurar o navio logo de quem?De Fabiano ‘cara de sabão’.
E o garoto foi pra casa chorando,resmungando e soluçando.Mas tudo foi resolvido da melhor forma possível, o pai dele logo tratou de dar o então lançamento do vídeo game ATARI com 23 jogos e nos proibir de aparecer na sua residência, afinal não éramos boa companhia para o filho dele, achava o grande empresário Sr.Carlos Amaral.

O valor dessa lembrança que carrego ,já como adulto, e que creio que ficará dentro de mim enquanto eu existir, não há boné da moda, nem bermuda de surfista, nem tênis de skatista que possa pagar. São outros valores,uma outra infância,um “gostoso outro tempo”.
Hoje quando reencontro esses amigos de infância e paramos pra beber uma cerveja,comer um churrasquinho no ‘guimarães’ e conversar, essas entre outras historias marcantes de nossa infância são expressas com tanta alegria, tanta saudade de um tempo que não volta, mas que nos marcara para sempre.
Não sei se terei filhos, mas faço gosto por um dia tê-los, e hei e passar a esses todas minhas histórias ede menino e o que Mario quintana já dizia.
‘ Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata !’


HUGO MENDES GUIMARAES
12/04/2006

Vento no minho




Trago vinho e lembranças do outro lado da Bahia
Trago palavras perdidas e sentimentos disformes
E o que terá nome?
Vago pelo meu pensamento já perdido na volta
Onde estou?
Sou uma alcatéia de desejos e vontades,
Cadê os sinônimos?
Aonde foi parar o "pseudo-controle" do sentir?
O leve pesa na definição
Como assim palavras somem? Escorregam pelas mãos?...
Fico com o peso do teu corpo
Trago o teu sorriso delicado
O gosto da tua boca na manha desconcertada
Da intimidade ainda envergonhada,
guardo o que ainda quero sentir nesse dia que me vi perdido.

A Escrita


É quando ouço o som pela janela de dormir
Desse que entra num singular por se sentir
Me desperta a atenção para o quintal escuro
Será que estou louco? Que faço?

É quando me pego no susto de minha saudade
No suspirar de meus pensamentos perdidos
No se mexer na cama como bicho mordido
Que ouço teu som sereno no meu se perder

A hora já nem importa quando a vontade vem
A caneta,o primeiro papel, a primeira palavra
O desabrochar pra vida na primeira golada
Na primeira frase,na primeira chorada

A poesia bem assim se faz,sem menos,sem mais
Sem mais imaginar ser,sem menos endurecer
Toma forma,toma pulso,toma gosto,sem desgosto
Me faz assim sentir,assim não desistir
De ser o que minhas palavras são,
Tão somente eu ,pão saudoso do teu gosto

domingo, 13 de fevereiro de 2011

DO CASAMENTO E DA VIDA MILITAR



Era um daqueles dias em que tudo parecia dar errado... Acordei de mau humor. Me atrasei. Cheguei na escola e fui barrado. Fazia um calor dos infernos. Deixei café cair no uniforme. O ônibus quebrou na volta. Cheguei em casa cedo e tive que explicar pros meus pais o que havia acontecido... Minha mãe super irritada com o almoço, com o que faltava fazer, com a bagunça da casa, com a sujeira... Reclamava de tudo! Da qualidade da batata que meu pai acabara de comprar ao gosto da água no galão.
Suada... Esbaforida... Eu via no seu rosto o suor escorrer enquanto abria o forno e gritava irritada:
- Teu pai também me compra um frango horrível desses, o treco não assa de jeito nenhum, coisa ridícula!
Eu ali, olhando aquela cena. Meu pai tirando das costas mais 4 sacolas com frutas e legumes e pondo no chão.
- É... O dia está quente... São Pedro tá “chamando no maçarico”!
- Maçarico tá na sua cabeça, FERNANDO GUIMARÃES, que me compra um chuchu desses!!! Disse ela, mais irritada ainda (quando o chamava por nome e sobrenome, era por que a coisa estava feia...)
Fui me dirigindo para a sala pensando em como devia, de fato, ser difícil casar, conviver juntos, enfim, no auge dos meus 16 anos isso era uma questão embaraçosa... Pensar nisso, ver dias como esse dentro de casa e que deveriam ter em qualquer outra. Enfim, falei:
- Pai... Sinistro! Você é todo paciente, né? Tranquilão aí, não se estressa e minha mãe desse jeito com a gente, cara... Pô... Como é que pode isso? Reclama lá também, pô!
- Gudinho, - como ele me chama - vou te contar uma coisa:
- Coé, pai? Vai lançar qual caô agora?
- Com 13 anos eu comecei a trabalhar. Era uma loja de sapatos no centro do RJ. Era o que hoje vocês chamam de Office boy... E cheguei a conferente, sabe?
- Hum?
- Pois então, foi quando eu conheci minha mãe, com 14 anos.
- Sua mãe, pai? Ela não faleceu no parto da minha tia?
- Sim, “deixou de existir “ nesse dia. (Engraçado... Meu pai nunca usou a palavra “morte”.)
Por alguns segundos pensei:
- Meu pai estaria ficando maluco ou estaria me contando uma história sobrenatural? E, no caso, qual a relação disso com o casamento e com o estresse da minha mãe?
- Eu falo da minha segunda mãe: MINHA “MÃE-MARINHA”, A Marinha Do Brasil!
- Aaahhhhh, pai! Já disse que não to a fim de ir pra Marinha, cara!
- Não, não... Fique tranqüilo... - e continuou a história:
- Com 14 anos entrei pra Marinha do Brasil. Fiquei interno 3 anos, muito corri, muito malhei, comi coisas que nunca imaginei comer, fiz coisas que não achava que era capaz de fazer, aprendi a cozinhar, a praticar esportes, a me alimentar... Aprendi até a costurar e a dar brilho no sapato! Aprendi a ‘gíria do mundo’!!! Viajei também o mundo, conheci gente, me especializei, fui a Sargento, Sub-Oficial e, nas prerrogativas de Almirante, fui professor na minha área na Marinha. Fui paraninfo de turma e tudo... Já te contei essa???
- Já pai, essa eu conheço... - disse eu, rindo.
- Pois então... A melhor e a pior parte da minha vida na Marinha você não sabe onde foi. Ou sabe?
- Sei pai... Na Guerra da Lagosta, né? – eu disse, rindo.
- Que Guerra da Lagosta nada! Isso foi moleza! Marcante mesmo foi nos submarinos.
- Humm...
- Fui com orgulho Chefe de Máquinas, Eletricista Oficial, enfim... Fui Submarinista boa parte da minha vida na “Mamãe Marinha”.
- E o que tinha de horrível lá no submarino?
- Gudinho, eu já levei vocês lá quando crianças, você lembra né?
- Sim, lembro.
E nesse momento meu pai liga a TV, junta os sofás de forma a criar um retângulo de uns 4 metros quadrados, ficando nós dois ali dentro, e começa a falar:
- Tá imaginando o calor? Muito quente? Imagina motores, todos os motores, estamos na casa de máquinas, tá agora uns 54 graus aqui dentro, temos poucos metros quadrados, nossas cabeças batem no teto do submarino, pois “aqui” só tem 1,60m de altura... Estamos com muita pressão nos ouvidos, a 200m debaixo d’água.
Meu pai ia falando isso, ao passo que ia aumentando o som da TV. E o pôs no volume máximo!
- PAI, A TV ESTÁ MUITO ALTAAAA!!! - disse eu, quase gritando.
- ENTAO... ESSE É O BARULHO DAS MÁQUINAS TRABALHANDO... É ASSIM MESMO, É O MOTOR - disse ele, aos berros.
- ISSO É COISA DE MALUCO! – gritei.
- AGORA ENTRA NO MOTOR PRA TROCAR A FIAÇÃO, TÁ MAIS CALOR AINDA... VOCÊ BATEU A CABEÇA NO TETO E O CAPITÃO QUER QUE VOCE RESOLVA O PROBLEMA DO MOTOR AGORA. AGORA!!! EU DISSE AGORAAAAA!!!
A TV nas alturas, meu pai gritando, eu gritando mais ainda e – confesso - emocionalmente me senti irritado e com calor.
Minha mãe aparece na sala com uma panela na mão e batendo os pés no chão.
Meu pai desliga a TV, empurramos o sofá pro lugar, ligamos o ventilador e minha mãe diz:
- Fernando, só me faltava essa! Você brincando com o Hugo, DESSE TAMANHO, em cima do sofá, sujando, PRA VARIAR, e ainda por cima estão surdos??? – E deu as costas. E voltava para a cozinha resmungando, enquanto ele me olhava eu perguntei:
- Mas e aí? Onde estávamos? Essa era a parte ruim, né? E a boa do submarino?
- Pois é, filho, a boa é que sua mãe pode fazer o que for que jamais chegará perto do stress de um submarino, a 200m de profundidade, com problemas no motor, um calor de 50 graus, uma gritaria, 4 homens “batendo cabeça” pra reparar o problema e um capitão gritando no seu ouvido.
- NÓS VAMOS MORRER AQUI DENTRO SE VOCES NÃO ‘ SAFAREM ESSA ONÇA’ HOMENS, ISSO NÃO É UMA SIMULAÇÃO, CADÊ A SOLUÇÃO???
- Que situação pai... Isso acontecia com freqüência?
- Bastante, bastante...
- É, no caso, comparando, né? Minha mãe até que...
- Sua mãe é um Anjo - disse, rindo.
- Entendi... Essa é a parte boa, né?
- Também... Melhor ainda por eu ter feito sua inscrição pro Colégio Naval! E veja a calmaria de pessoa que você vai se tornar!
- Vai começar esse papo de entrar pra Marinha de novo?
- Não, pô! É papo de “casamento”... Até isso a Marinha me ensinou – disse, rindo.
- Só faltava essa... Tem que passar pela Marinha pra conseguir casar? Melhor, pra conseguir manter um casamento?
- Eu não disse isso...
- Porra pai, você fez minha inscrição, cara???
- Que privilégio, minha “MAMÃE MARINHA” vai ser a sua também... Seremos irmãos! Que engraçado, né?
- Aahhhh, pai... Na moral, tô legal desse papo... “Permissão para me retirar” - disse eu, enquanto entrava no banheiro e fazia sinal de sentido.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, SOLDADO! - Disse ele, em alto tom, de frente para porta do banheiro.
Rapidamente a abri e, pela fresta, falei:
- SOLDADO NÃO, NO COLÉGIO NAVAL EU JÁ SAIO COMO OFICIAL!!! - E tranquei a porta.
- Tô indo lá agora fazer sua inscrição!
- Você não disse que tinha feito? - Gritei de dentro do Box.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, SOLDADO!!! AMANHÃ MESMO DAMOS INíCIO AOS ESTUDOS - disse ele aos risos.
-NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

--Desse cada (re) encontrar--




Fiz da minha poesia minha forma simples de dizer
Fiz do meu canto um encanto para confortar
As lagrimas que nascem do arrepiar do som
Cabelos que falam aos olhos o que querem ganhar
Olhos que falam aos corpos o desejo e o tom

Pendular-se-ia pelos ventos de outono
Lírio saborear do amanhecer pelos seus cabelos
Rasgando entre estrelas esse novo raio de luz
Agasalhar-se da novidade já conhecida
Da paixão ardida, mas tal única por se beijar.

Acordar com um toque já saudoso, saboroso todo se encantar.
Como se não houvesse amanha, fogoso efeito desse recíproco trocar.
Da noite passada, estrelas , lua e o sono.
Qualquer canto novo, prazer a nos contemplar!
E sigo apenas contigo, fugido a pensar;

Aguardar sem ver, momento novo a renascer.
Qualquer coisa que me remeta ao que sinto
Ao que vejo ,ao que não sei dizer.
Ao que me faz perdido,seco por viver.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Poesia,pão e Cia



Poesia não se faz como pão,
Não se coloca no forno, não se bate, não se assa,não se segue receita,não se fermenta de pó
Poesia não se molha no leite, não se aguarda na água,não se pesa nem se ascende brasa a lenha
Poesia não se aprova,não se nega,não se rejeita
Poesia nem precisa ser aceita
Poesia so encontra com pão no seu momento único de se alimentar
Alimento d’alma, das palavras saboreadas,no recíproco se encontrar,se saciar.
Poesia tem diversos gostos que não da pra catalogar,separar,dimensionar
Mas poesia sabe nutrir,alimentar
Pão e poesia para os que têm fome
Poesia e pão para os que não têm nome
Sobre-nome
Homem

Pedalando por ai...


Confesso que minha aventuras de ciclismo começaram a uns 2 meses... Iniciei leve. Daí fui modificando a bicicleta, adequando altura, garfo com suspensão, banco, pneus e aumentando as distâncias, o tempo e o suor.
Pouco antes do Ano Novo - pra ser exato, uma semana antes - comecei a ir, de onde moro, ao Centro de Búzios, dava uma parada na orla, bebia uma água e voltava.
Todo o percurso durava, ou melhor, dura, cerca de 50 minutos EM PEDALADAS COM RITMO MODERADO, sem muito esforço ou cansaço.
No primeiro dia, ao chegar na praça principal aqui do Centro de Búzios, por volta de 6:30 da manhã - sim, estou acordando e pedalando cedo para os que não crêem - dei de cara com vários grupos sentados nos bancos, mesas, ainda bebendo, loucos, com carros abertos, som nas alturas, dançando,vomitando... E por um segundo pensei:
- Pera aí! Hoje é terça-feira, são 6:30h da manhã de 21 de dezembro de 2010?
Continuei pedalando, dessa vez mais lentamente, e me lembrando do percurso que acabara de fazer na estrada. O tempo estava meio frio, nublado, lojas fechadas, poucos carros na rua, padaria abrindo... Mas, para minha surpresa, a praça estava como o dia fosse um sábado a noite de um verão de 40 graus. Ao virar na rua à esquerda, seguindo para a famigerada “Orla Bardot”, me deparo com um grupo vindo em direção contrária. Mulheres com salto alto na mão, vestidos sujos, tropeçando, caindo, roupas íntimas à mostra... Num outro grupo, mais à frente, um cara de cueca, no colo dos outros que lhe davam um “banho de whisk”. Mulheres, bonitas mulheres, se escorando umas nas outras para o “Sudoeste não jogá-las no chão”. Passo por eles e uma diz:
- Hei, me leva de bicicleta, moço?? (com olhos virados, fala embolada e ‘tomara-que-caia mais que caído’). Enquanto os outros do grupo vinham segurá-la:
- Sai daí Renata, porra!!!
Chego à Rua das Pedras, à Orla Bardot, e, pra minha surpresa - e também ignorância - percebi que havia dezenas desses que saiam da discoteca Privilège, ainda aberta e tocando Trance em alto som. Aquela imagem pra mim foi de- como posso dizer ou achar palavra melhor? - “TOTAL Sodoma e Gomorra”. Inúmeras garrafas de ‘long neck’ quebradas no chão, carros com alto som e portas e porta-malas abertos, homens e mulheres se agarrando e se beijando na parede, abaixando as calças. Quatro casais no mesmo carro, parado, som alto e mais um, na mala, deitado em seu próprio vômito, enquanto os amigos faziam uma ‘ leve brincadeira’ com elas no veículo. assim como essa visão, o Sol já estava forte , o dia com cara de praia e as pessoas, sem o mínimo sentido das coisas, bom senso ou afins, coisas que o próprio álcool deve estirpá-las.
Engraçado pra mim fora ver como é o ‘outro lado da moeda’... Eu ali, lúcido, tranqüilo, bebendo água, pedalando, antes das 7 da manhã, e indo na contra-mão da madrugada, com adolescentes e adultos cuja noite ainda não tivera acabado. Como era curioso perceber que eles não me percebiam, ou não percebiam os pescadores que já chegavam com seus barcos lotados, não reparavam naqueles que já praticavam seu cooper matinal... Não! Eles não se davam conta de que a noite já tivera virado dia, e, obviamente, não paravam de beber... Carros saiam e iam até os postos “AM-PM” buscarem mais para que ficassem ali na rua mesmo. Bebendo, consumindo pó, “dedo de Hulk” e outras “cositas mais” (RISOS). Eu observava três caras que vinham em minha direção, abraçados, cantando algo que não dava para identificar. Eles gritavam e pulavam! O do lado esquerdo se soltou e começou a dançar sozinho “
- que som fodaaa esse que ta tocando!!! - ouvindo de algum carro próximo. Sozinho ainda, na sua dança se virou e deu de cara com uma árvore. Tentou se segurar, mas já era tarde... “Voou” pra dentro da água da Praia do Canto. Os “amigos” correram, rindo e se agacharam. Falaram mais meia dúzia de ‘abobrinhas’ enquanto o outro, com água pela cintura, tentava pensar em como sair dali.
No que estou observando - bastante curioso - o fim desse episódio, encostado na minha bicicleta, escuto um som mais alto - meio ‘Tum-tum-tum’ - atrás de mim. Olho então e vejo um carro conversível preto cujo modelo não identifiquei, com bancos de couro, capota de igual material, rodas enormes e um cara no volante e outro do lado com uma garrafa de Absolut pela metade e com a cabeça baixa. (Desse tipo de carro que só tem dois bancos, sabem?) Olhei pro cara. Ele me olhava... Desviei e o voltei a olhar pro retardado nas águas gritando:
- Mutliiiii, faça alguma coisaaaaaaaaaaaaaaa!!!(lembrei logo do antigo desenho animado que tinha esse personagem) Daí ressurge na minha visão o carro de dois bancos. O cara diz:
- Aí, irmão! Você aí grande, da bicicleta!” - disse embolado e sotaque paulista.
- Opa, eu?” – Respondi, virando em sua direção.
- Podes crer ‘fita’! Seguinte: quando que tu arruma uma ‘farinha’ pra nóis aqui?” - batendo o dedo indicador no próprio nariz.
E eu: - Pô parceiro... Te falar, não mexo com isso não...
Ele: “- QUAL FOI IRMÃO? Arruma aí um “pó” pra nóis irmão, dinheiro não é problema não!!! - falava ele, mais embolado ainda, enquanto abria sua carteira e deixava cair documentos, papéis e notas de R$50,00 dentro do carro.
Eu: -Parceiro, se liga só, EU NÃO MEXO COM ISSO, tá ligado? Eu NÃO VENDO essa parada, e EU NÃO QUERO SEU DINHEIRO!
Ele, insistindo: - Porra, ajuda ‘nóis’ aí! Onde que eu arrumo aqui?
Depois de pensar por alguns segundos, apontei pra frente:
- Você tá vendo aquela árvore lá?? Do lado daquele quiosque Azul e Branco?”
Ele: “- Tô ligado...”
Eu continuei: - Vai lá, deve estar fechado, mas pode bater na janela q o maluco que mora ali dentro tem, ele sempre arruma aí pro pessoal.
O cara, feliz da vida:
- Putzz!!! Valeu irmão, tu é ‘fita nossa’!!! - e saiu arrancando com o carro. A essa altura eu já pensava:
É... Vou me adiantar logo, antes que o maluco chegue até a árvore e fique igual a um retardado batendo na janela do quiosque dos outros, esperando ser atendido por um ‘vendedor de drogas’ que não existe - bom, pelo menos ali dentro não – e dei um leve sorriso.
Enquanto pedalava na volta, vinha eu pensando que eu estava era mesmo na hora e no local errado... O cara entrar numa de que eu vendia o bagulho... cara,é impressionante como essas coisas acontecem comigo!!!
Parei na loja do posto de gasolina, já perto da estrada, pedi uma água e, não mais para minha surpresa, mais alguns carros parados e mais gente ainda bebendo, vomitando, caindo pelo chão e ouvindo Funk , Dance, Trance... Tudo nas alturas! Enquanto chegava próximo do balcão fui abordado por um maluco barbudo, com cabelo grande e bagunçado, piercing na boca e nos olhos, camiseta vermelha do ‘CHE’, bermuda suja e tênis All Star.
Acabei pensando com preconceito: “Pronto, esse agora vai perguntar se vendo maconha.” E com os olhos vermelhos, trincando os dentes, colocando a mão no meu ombro, ele disse:
- Bicho... Eu te conheço?
Eu: - Depende do que você vê!
E o cara: - Sim bicho, eu te conheço...
- Pô, que parada... Foi mal, não tô lembrando de você - disse eu, me esquivando e já pedindo minha água.
Ele insistiu: Cara, eu te conheço! - falou, olhando na minha cara.
Olhei bem na “fuça” daquele maluco
- Parceiro, se liga, acho que a gente não se conhece não, tu tá falando merda aí, eu tenho que “meter o pé!
– LEMBREI VOCE É O CARA QUE APRESENTAVA O VIDEO SHOW, PORRA, AGORA É DJ!!! Você já até tocou aqui em Búzios! – disse ele, chamando um de seus amigos.
E eu, já subindo na bicicleta:
- Não mané, não sou eu não!
- ANDRÉ MARQUES” - disse, gritando, e os outros me olharam.
- Quanto que é água, parceiro? - perguntei rápido pro cara do balcão.
-R$1,50
- Putz, só tenho 1 Real.
- 1 conto? Pro ‘André Marques? eu faço po! - disse, rindo ironicamente, o balconista.
E o maluco da camisa do ‘CHE’:
- Que viaaaagemmm te encontrar aqui! Olhei pra moeda de 1 real, pensei no que o cara do balcão falou... “Um conto”. É... Deve valer um CONTO essa pedalada de hoje..
- Valeu, parceiro! Fui!!!”
- Coe, André?? Volta aí, irmão!!! ANDRÉ, ANDRÉ, ANDRÉÉÉÉ!!!” –gritava o cara no posto
E eu, pedalando rápido meio que ‘fugido’:
- Vaiiii tomarrr nooooooo seu.........

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Meu Gato BIKE





Chegava eu por volta das 7:15h da manhã daquele ano de 1999, daquela quarta-feira na famigerada academia de Musculação, Jiu-jitsu, Kung-fu, Boxe, MMA e outros ‘bichos’ mais, do famoso dono e lutador Jorginho.
Encostei minha bicicleta - que havia pego num rolo 3 domingos antes na famosa Feira de Areia Branca, na mureta, acomodada junto às demais dezenas de bicicletas do pessoal que frequentava a academia.
Entrei com disposição naquela manhã:
- Fala rapaziada! Fala aí, Jorginho... Seu morto!
- Morto tá tu, seu FRANGO!!!
Era, de fato, um relacionamento muito ‘amoroso’ que esse dono, professor, instrutor, esse ”tudão” da academia, tinha - e ainda deve ter - com seus alunos. Fazia comentários do tipo:
- “Sai daí, seu merreca!” - aos risos - comentando que o camarada não tinha músculos. Ou ainda: -“Tá deitando na agulha e se cobrindo com a linha rapá, vai se alimentar primeiro que tu “tá morto” – novamente aos risos.
Fiz um rápido alongamento e, como dizíamos na época, “chamei nos ferros”, bebi água, voltei pra bicicleta ergométrica, fiz mais um seção “puxada” nos ferros, 1 hora e 1/2 de academia e FIM! Passei a toalha no rosto, joguei-a nos ombros e fui saindo e me despedindo:
- Valeu aí, Jorginho!
- À noite tem Jiu Jitsu, hein, “MERRECÃO”! Vê se tu vem!
- Deixa comigo, venho sim.
- Traz aquele teu kimono pra fazer rolo, aquele teu A3 QUE TU SABE QUE NÃO CABE MAIS EM TU? - (A3 é o tamanho do kimono, que ia de A1 a A5).
- Tá tranqüilo feião!
Saindo então da academia, virei para a esquerda, e, olhando para a mureta, procurei minha bicicleta, que, para minha surpresa, simplesmente não estava lá! Olhei de um lado, de outro... Haviam várias outras, menos a minha!
Ainda sem querer aceitar que tinha sido roubado, olhei uma por uma, dos dois lados do muro, e simplesmente não achei.
Enquanto tentava, em vão, achá-la, um senhor do outro lado da rua gritou:
- Haaa grande! Não sabia de quem era... Passou um doido aí lá do bairro “Tropical”... Ele tava com um saco na mão, com uns gatos pra vender... Sei q ele montou numa bicicleta aí e meteu o pé!
Pensei comigo, só pra variar:
- Um maluco com um saco, vendendo gatos, dentre as mais de dez bicicletas, rouba JUSTAMENTE A MINHA? E, afirmo, não era um “camelo” bonito, chamativo, enfim... Coisa que só acontece comigo!!!
Enquanto o senhor falava isso, eu andava exatamente pra posição onde antes estava minha bicicleta, e, naquele espaço agora vazio, havia um saco (dessas sacolas de pano antigas, de “sacolão”) e lá, PASMEM, havia um gatinho!
Gritei pro cara do outro lado da rua:
-AÊ SENHOR, tem um gato aqui, dentro de um saco!
- Haaaa, então foi isso... Pera aí! Vou aí ver!
Falou chegando, atravessando a rua. Olhou o saco, olhou pra minha cara:
- É, ele tava com esse saco aí tentando vender uns gatos. Acho que ele só não conseguiu vender esse aí... Sei não grande, ele “deve de ter largado isso aí” e “meteu teu camelo”...
- Porra, como assim ??? Roubar uma bicicleta e largar um gato?
- Aí eu já não sei grande, sei que é fácil encontrar esse safado rapá! ‘Nêgo’ tá doido pra “quebrar” esse vagabundo. Ele vive roubando coisa aqui no bairro, dando ‘volta’ nos outros... Diz ele aí que “esses gato” era tudo de raça... Porra nenhuma! É tudo vira-latão!
E eu pensando comigo: ‘Nessa altura do campeonato, arrumar um gato vira-lata, que trocaram à força na minha bike...’
Agradeci o coroa, que já ia se direcionando pra padaria, e peguei o gato, olhando pra cara dele...
- É parceiro, vou te levar pra casa um pouco, por que se eu chegar contando isso, ninguém vai acreditar em mim!
E lá fui eu, subindo a avenida do meu bairro, suado, a pé, com um gato no colo, pensando:
- É.. Tem coisas que só acontecem comigo...
Virei a esquina e entrei na minha rua. Vieram duas crianças:
- Ai, que lindo! Posso ver?
- Lindo? O que? Esse gato? - perguntei, espantado.
As crianças brincaram um pouco com ele e perguntaram:
- Qual o nome dele?
- Boa pergunta!
- Boa pergunta o nome dele?
- Não, não... No caso... O nome dele, né? Haaa! É BIKE!!!
As crianças brincaram mais com o “Bike”, começaram a puxar o rabo dele e o bicho foi ficando “estressado”...
- Chega, chega! Tenho que levá-lo pra comer. Tchau!
Metros à frente cheguei em casa. Entrei por trás, pela cozinha. Minha mãe fazia algo no fogão. Meu pai sentado à mesa, comendo pão, disse:
- Que isso na tua mão?
- Isso é um gato, pai!
- É, no caso graças a Deus eu percebo isso!
- Pois é, que bom...
- De quem é esse gato?
Quando comecei a contar o que havia acontecido, meu pai aumentou a voz ao chamar minha mãe,
- “Neguinha”, vem ouvir essa aqui!
Continuei a contar tudo, os detalhes do caso, o que o moço havia falado do ladrão, localização, bairro, etc, etc... Eles ouviram atentos todo o desenrolar, e meu pai perguntou:
- Hugo, pode falar... VOCÊ TROCOU A BICICLETA NESSE GATO?
- Como assim, pai?
- ROLO! Você FEZ ROLO com a bicicleta nesse bicho?
- ‘Coé’, pai? Tá de sacanagem? Eu vou trocar minha única bicicleta num raio de um gato?
- Não sei... É possível, né? Dá uma injeção de B12 nele! Vai que ele cresce e vira uma onça? Daí tu sobe nela e sai “vuado” por aí! – disse, rindo.
Eu já estava um pouco puto com a situação quando minha mãe fala:
- Ele é bem gordinho, né? Me dá ele aqui! - pegando da minha mão -
Minha mãe brincando, olhando pra barriga dele...
- É, não é fêmea não, pensei que tivesse ‘de barriga’, mas é macho.
Meu pai em tom de deboche:
- Trocou uma bicicleta num gato gordo!
- Pai, EU NÃO FIZ ROLO! ROUBARAM A BICILETA E DEIXARAM ISSO NO LUGAR!
- Qual o nome dele, Hugo?
- Nome? Por que? Eu não pensei de ficar com ele... Eu...
- Ah! Mas ele é tão bonitinho... - disse minha mãe, com tom de ternura.
- É, mãe, não sei não, falei pros meninos na rua que o nome dele era ‘Bike’, me referindo à minha bike que foi roubada...
- Ótimo nome! - Disse ela.
Aí meu pai, pra “fechar com chave de ouro”:
- Bike Barrigudinho, é esse o nome desse bicho? - disse, rindo.
- Pô, pai! Bike Barrigudinho?
Minha mãe levou o bicho próximo a meu pai, uma vez que ele não queria por a mão no gatuno, e disse:
- Olha Fernando, como ele é bonito! Gordinho e bonito!
A essa altura eu já tinha colocado um café no meu copo. Sentei, puto, e comecei a comer um pão.
- Gudinho! - como meu pai me chamava.
- Pai, não quero mais falar nisso, na moral.
- Não, sério! Agora é sério... Você reparou nesse gato?
- Pai, eu não quero mais falar! Na boa...
- Gudinho, esse gato é VESGO!!!
- Porra pai, pára de aloprar!
- OLHA AQUI! O GATO É VESGO!!!
- Vai querer botar o nome do bicho agora de “Bike Vesgo Barrigudinho”?
- Não... Claro que não... Bike Barrigudinho tá ótimo, mas que ele é vesgo... Ele é sim!
Minha mãe colocou Bike no chão enquanto procurava um pote para pôr leite para ele no canto da sala, em baixo da escada. E ainda esticou um paninho... E Bike Barrigudinho “caiu dentro” do leite, enquanto eu terminava meu café da manhã.
Meu pai abria o jornal enquanto tomava café. O gato tomava seu leite. E minha mãe já contava a novidade pra vizinha da frente, que varria a calçada.
- O Hugo arrumou um gato lindo, vou te mostrar. (e eu, lá de dentro de casa, pensando, ao ouvir isso: ‘- Porra mãe, o gato é barrigudo e vesgo e você chama de lindo?’)
Bike Barrigudinho ficou conhecido na rua, todos gostavam dele, era um gato divertido, brincalhão, ”um pouco” vesgo, confesso... Vivia no beiral do terraço e comia bastante. Engordou ainda mais nos primeiros meses. Minha família e as crianças da rua o adoravam. Muitas fotos foram tiradas... Bike virou “membro familiar”, como todo gato. Abusado, deitava e dormia no meu travesseiro, no sofá, via TV, escalava cortinas, deitava na cama dos meus pais – meu pai odiava isso!
Bike Barrigudinho se tornou um doce gato de estimação, lembrança viva até hoje nas conversas de família e entre amigos. E, pra variar, eu, “motivo de chacota”!
- Lembra quando o Hugo trocou uma bicicleta por um gato?
- EU NÃO TROQUEI! ROUBARAM! QUE SACO...
- Haaaaa... Tá bom! Foi um “rolo forçado” né? – todos diziam, aos risos.
Na academia fui zoado durante dias, semanas, meses a fio...
- Cadê o Bike Barrigudo??? Traz ele pra malhar aqui cara!
- Vai SE F...!!!
- Fala, Hugão! O Bike tá estacionado aí na frente??? Cuidado pra não roubarem ele e deixarem um “sanhaço sem bico e com asa quebrada” pra tu!
- Haaaa, maluco, vai pro INFERNOOOOOOOO!!! - dizia eu, irritado.
Por falar em sanhaço - já foram tantos, não no valor da palavra, do passarinho em si, mas na gíria, referindo-se a problemas que – bom... Isso é papo pra outros contos.
Saudades do Bike Barrigudinho, dos rolos da Feira de Areia Branca, e juro, saudade daquela antiga academia.

“Hugo”