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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Deveres

Deveria ou poderia largar tudo e danar a escrever
Pela manha,pela noite,madrugada a dentro por filhos de escritas para fora
Deveria
Deveria abandonar a antiga profissão,ganhar um cão,começar a fazer pao
Deveria...
Deveria ter surtos de loucura e coragem, sair pelo mundo sem tento ou dosagem
Apenas caminhar para o novo sem medo do chão firme e seguro do passado ter ficado pra traz
Deveria ser valente,mais contente,amigo,ardente
Deveria...
Deveria por pontos nos is,brincar com saguis,acreditar em sacis
Deveria ter uma pequena orta,fazer yoga,me alimentar melhor
Deveria desatar os nos das angustias que parecem cegos,evocar todos meus ecos para o novo viver
Deveria...
Deveria brincar de olhar estrelas,sonhar com sereias,contemplar o mar
Deveria tanta coisa, hoje e sempre, ver tanta gente que me distanciei
Deveria,poderia,faria,seria,quem sabe um dia?
Conjugaria a minha melhor forma de verbalizar.
Conseguiria?

Circulação de Dinheiro


Circulação de Dinheiro
Fora uma novidade pra mim.Eu havia então acabado de comprar um terreno com vista distante para o mar,não menos bela pela distancia, pois era lindo o sol nascendo por trás do morro,ao lado do mar.
Conversava então com um empreiteiro de obra.Rapaz de uns 40 anos,mulato,mineiro e que terminava uma construção ao lado do meu terreno.Com sotaque bem carregado de sua terra e após me fazer um orçamento da obra que eu pensava o mesmo disse:
- "Sô, ce "sabia que não fica caro não né?
- é...pra quem ta duro, fica puxado "né dr"?
Foi quando o rapaz me olhou e começou um discurso um tanto quando,de inicio, viajante,mas que no final fazia sentido.Começou ele a dizer:
-“ói sô”, hoje em dia esse dinheiro não é nada sabia?o dinheiro na verdade não existe né?”num” é “verdade” ?
- não existe ? e o que você esta me cobrando o que é ? milho pra pipoca?
-"inté que pudia" ser milho,por que no fundo “um cado” dele vai virar isso,caso chegue a minha mão.
-não entendi não mineiro.
- “ó só “, o dinheiro na verdade “nós não tem” ele “passa por nós”, ele não tem dono não sô.pensa que é o seguinte,como que você comprou esse terreno?de onde veio esse dinheiro?
-não isso ai é que eu vendi uma casa onde eu morava e guardei.
-e a pessoa que te comprou faz o q?
- sei lá, acho que tem uma padaria.
-pois então sô..o dinheiro chegou nele do povo que compra pão,povo ‘ingual’ eu e tu. Leite,pão,milho de pipoca né?- falou sorrindo-
“in depois” ele “afoi” ajuntando esse dinheiro, “ajuntando” e te comprou a casa.
- é..comprou
- daí o dinheiro ficou na Mao do senhor e senhor fez o q?
-comprei umas coisas e no fim esse terreno,agora to duro.
-pois então sô.o senhor agora "trabaia", e junta(ganhando de alguém) e vai pagando a obra e eu "vo" recebendo,gastando e pagando "os piao ", e os "piao vao gastanto",comprando pão leite e milho e "tumando" cachaça,e "o home "da padaria vai vendendo,juntando e gastando com outras coisas."inté" que assim vai.”dé mole” o dinheiro volta "inté "pra sua mão, é coisa de doido – disse rindo-
-é.. faz sentido,é a famosa mágica da circulação do dinheiro.
-ô sô, não sei se é mágica não mas que o diabo do dinheiro some,"haaa" isso some. E não adianta "ocÊ "ficar guardando ele pra vida toda né?por que um dia nós morre, fica ele La no banco,e passa pra “famiia” que vai e torna a gastar,não tem jeito né?
-é rapaz , é verdade mesmo
-“intaumse”,quando que começo na obra?
-depois dessa aula de circulação de dinheiro?pode começar amanhã.
-ta certo, e o senhor paga quando?
-tranqüilo, assim que alguém passar pra mim.eu receber meu salário,pra frente a gente vê.O importante é o dinheiro circular.
-é sim sô,mas o senhor não tem nada?
-ué,mas foi quando o papo começou rapa, eu tô duro "alexandre pires" da regiao dos lagos.
-Mas é “qui,qui”, é “qui”
-“qui qui qui” não mineiro,vai roer a corda? Pega a obra ai,eu recebendo eu vou te passando
-é..
-então fechou bonito.- disse eu sorrindo apertando sua mão-
-é , nós vai se "acertano"..- disse ele bolado-
-a não ser que você aceite um rolinho...
- sô..como que é isso?
Depois dessa singela pergunta do mineiro, já joguei um celular de 2 chips com câmera de 5 mega + cartão de memória na mão dele, uma pulseira de ouro de 6 gramas de ouro e disse
- é assim mineiro, segura isso de entrada, mais esses dois chequinhos e pra frente “nóis se acerta”, e viva a circulação de dinheiro e o “jeitinho brasileiro”
Meio incabulado, colocando a pulseira no pulso,futucando o celular foi indo embora dizendo;
- amanha 7 horas "nóis ta ai"
-até
-inté

Hugo Mendes

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A CHEGADA AO RIO


A CHEGADA AO RIO


Ainda por volta de 14 horas e 30 minutos o ônibus executivo, de ar refrigerado e cheirando a novo chegava à rodoviária Novo Rio vindo diretamente da região dos lagos.
Da grande janela eu avistava um domingo ensolarado nas ruas, os vendedores com seus tonéis de bebida correndo entre os carros, a fumaça dos caminhões, o velho sujo sentado abaixo da escrita “GENTILEZA GERA GENTILEZA”,e eu a pensar
-será que gera? O Rio de Janeiro continua lindo?
O ônibus vira para finalmente chegarmos ao desembarque, tiro de cima de mim a coberta, o saco de biscoito e a água mineral. O ônibus para, todos se levantam, arrumam seus pertences e descem.Ando calmamente pelo corredor e chego próximo à porta, assim que coloco meus pés no chão sinto aquele” bafo quente”, que me dá as boas vindas.
O calor, a gritaria, o corre-corre, as mochilas, as bolsas de viagem, sai pela esquerda no meio da confusão do passageiro que não encontrava sua mala e fui caminhando com minha pequena mochila nas costas, óculos escuros embaçado pelo suor que meu rosto produzia, e assim fui por dentre o povo cortando o interior da rodoviária para -então sim-aguardar o ônibus que me levaria a minha residência, do outro lado da pista sentido zona norte.
Atravessei a passarela e ao chegar do outro lado senti minhas costas molhadas pelo suor, as axilas, o rosto, o peito, os braços...
Tirei os óculos escuros, passei a blusa no rosto e continuei a caminhar.
Paralelo ao Cais do porto aquele povo todo aguardava suas conduções dividindo espaço com as barracas de doce e biscoito.
Esperei alguns minutos e uma van -que também me servia - passou, não pensei duas vezes e fiz sinal.
Transporte coletivo secundário vazio, eu e mais uma senhora - bem acima do peso - que estava ensopada de suor, ofegante, respiração acelerada pediu ao motorista pra abrir as janelas. Esse com uma cara de quem comeu e não gostou, começou falando sozinho e terminou a ela:
- Brincadeira “heim”,assim é difícil... Só abrir, a senhora não tem mão não?

Eu ali sentado ,ao lado oposto do motorista na última fila de bancos, me levantei e abri as janelas enquanto a senhora exaltada dizia com sotaque nordestino:
- Vá pro inferno seu capeta, nem pra abrir uma janela?Tenho “astrite” e artrose seu sem vergonha,pense em homem ignorante?”vixi”.
O motorista fez que não ouviu e continuou a dirigir naquele lento “cata-cata” de gente nos pontos, a cada 300 metros ele diminuía a velocidade, piscava o farol algumas vezes, e outras parava para pegar mais passageiros.
Quieto eu observa as ruas pela janela suja da condução, as pessoas correndo, os ônibus lotados, os vendedores, as famílias vindo da praia, o vendedor de churrasquinho, as dezenas de barracas de açaí, suco, x - tudo, lingüiça, bebidas, bucho, camarão, etc.

Avenida Brasil de grandes buracos e deformações no asfalto, ao lado dos pontos a sujeira que tomava conta de sacos de lixo, copos de açaí a pneus de caminhão estourados, no lento percurso, outra parada, mais passageiros entrando, mais calor, o vendedor se aproxima, tiro um real do bolso e compro uma água mineral.
Continuo observando a pista, os grandes galpões vazios, à venda, alugando, uns queimados outros abandonados, os barracos a beira da estrada, as favelas, o valão, o funk carioca tocando em frente à casa de borracharia, as vielas, a sujeira, o cavalo magro, um ou dois colchões queimados fechando uma rua, crianças sujas correndo sem roupa, o cachorro atropelado, as senhoras fazendo churrasco na laje e se esbaldando com água da mangueira ao som do bom e velho pagode “...deixo a vida me levar,vida leva eu...”

De repente me flagrei a pensar em tudo isso, e assim me passava, -como um filme na mente-, essas palavras que, juntas, formam esse encadear de idéias que agora escrevo.
Pensamentos que ali tive, naquele trajeto até minha casa, comparei - ainda que inconscientemente - ao lugar de onde eu acabara de chegar, daquele vento gostoso que passa o dia inteiro pelas ruas, daquele cheiro de mato, o cercado por montanhas verdes, as ruas limpas, uma cidade tranqüila onde os moradores estão mais preocupados com as construções ilegais em área ambiental do que com o “Zé bob” que se deu mal na novela das 8h.
Uma cidade que ainda se encontra longe do caos da violência dos grandes centros urbanos, cercada de lindas praias, um ambiente gostoso de se viver aonde, ainda, se pode caminhar tranqüilo, correr, andar de bicicleta e pouco ouvir ou ver de assassinatos, crimes bárbaros e estórias tristes de violência. É pensar em andar tranqüilo pelo seu bairro sem medo de ser encontrado por uma bala perdida.
Perdido -dentro de meus pensamentos-, não reparei que a van já estivera cheia e que um senhor estava na minha frente, de cara feia, falava
- Da licença aí grande, “deixa eu” chegar ai.
Disse acanhado
- Opa, foi mal “mais velho”, vê se da pra passar!
Encolhi-me, levantei as pernas jogando-as pro lado direito, ele passou, sentou e disse:
- Calor é esse “neguim”? ninguém “guenta” isso não, ainda bem que hoje tem jogo do “mengão”.

Não entendi bem a colocação dele, muito menos o fato do jogo de futebol minimizar a alta temperatura, mas concordei:
- É verdade!
Depois pensei comigo em silêncio,
-Deve ser por que com o jogo de futebol ele tenha um motivo pra beber, cerveja é gelada, refresca...
Enfim, pensamentos abstratos à parte voltei a pensar na vida, no passeio, no rio e principalmente no que quero pra mim, pra minha vida e meu futuro ao lado de uma senhora que goste de dançar comigo, que ria das nossas graças e me faça feliz. Pensei a que me proponho nessa vida, se não escolhi nascer, posso escolher por onde andar, onde envelhecer, e sobre tudo onde e com quem ter uma vida saudável e tranqüila.
E tive a nítida certeza que onde vivo hoje não é mais o lugar saudável e tranqüilo que meus pais viveram há 40 anos atrás -embora seja o mesmo-
E esse, daqui a mais um tempo, não será mais o que hoje representa, como dizia o pensador “Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio.” E meu “rio” não era mais o mesmo.
Olhei pro lado e percebi que já estava em cima do meu ponto, e nem vi chegar, gritei pro motorista que ouvia um som sertanejo.
- “OPA MOTORISTA”,vou ficar no próximo ai, em frente à antiga loja de carros.
Ele olhou pra trás
- Já é irmão! É nós!
Eu
- Valeu, “brigadão”, quanto é?
- “4,00 conto”, fiel
- Beleza, segura aí.
- “É nós”, fica com Deus “na disciplina” meu “peixe”
Coloquei a mochila nas costas, fui andando, e pensando sobre gírias, mas isso é “papo pra outro desenrolo”.




HUGO MENDES GUIMARÃES

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Queimada

Era uma quarta feira de muito sol em um pequeno bairro do interior da Região dos Lagos - no Rio de Janeiro. Sem asfalto, sem muita infraestrutura, mas com seu lado romântico, bonito, com vista distante para o mar, entre morros e com cheiro de mata.
Lá chegava eu para visitar meus pais que, já aposentados, volta e meia, ficavam ‘na casa de campo’ por alguns vários dias, para fugirem da loucura dos grandes centros urbanos em que viviam.
Fazia 15 dias que não os via, e como viajara para aqueles lados, não custava nada “adentrar o mato”, visitá-los, comer a famigerada “comida da mamãe” e rir um pouco da histórias de meu pai.
Lá chegando já buzinava, na rua de barro, poucas casas (quatro pra ser mais exato), sendo uma de meus pais. Muitas árvores, vento gostoso e no final, bem no alto, meu pai aparecia acenando e dizendo:
- A porteira tá aberta (todo orgulhoso do portão de entrada que ele mesmo fizera)!
Entrei, os abracei, bebi água, deitei-me na rede da varanda (que delícia!) e fiquei a observar o pasto bastante seco e amarelado.
- Engraçado, né, pai? Aqui tem é muita terra, pouca casa, árvore pra tudo que é canto né?
- Sente o ar meu filho, respira fundo. Ôôô, coisa boa né? Isso aqui é remédio pra qualquer doença que a criatura pode ter, né não?
- É sim. Aqui tem poucos vizinhos? Vocês não têm medo?
- Tenho medo da colméia inchada de abelhas e com uma rainha mal encarada, que apareceu aí e um “time de marimbondos” que estão cercando o quintal – falava aos risos.
A casa do vizinho mais próximo (à frente) ficava a uns 70 metros de distância e como o mesmo tivera ido embora, deixou o irmão tomando conta com seus filhos e esposa.
- Gudo (como chamo meu pai), quem são aqueles ali em baixo?
- Esse ai é o “mondrongão” e os filhos dele, ”mondrongão” é irmão de Hélio, dono da casa.
- Hum, entendi.
- Espia lá, estão indo à praia de novo e largam as duas crianças aí sozinhas, as coitadas não têm nem nove anos de idade.
- Que absurdo – disse eu.
- Não é à toa que é ‘mondrongão, né’? – disse rindo.
O Cheiro de comida gostosa já vinha da cozinha e me deixava ansioso.
- Tá pronto! – disse minha mãe.
Fomos “atacar a bóia” enquanto conversávamos sobre o lugar, sobre morar por lá, sobre a qualidade de vida, o vento, as abelhas, os marimbondos e tudo mais.
Após o almoço - como de costume - deitei no chão e, com a camisa em forma de travesseiro, dormi na sala, meu pai na sua cama e minha mãe foi molhar as plantas no enorme quintal cheio de árvores, plantas e mato.
Ouvia, enquanto “embarcava no meu sono”, minha mãe falando sozinha sobre uma fumaça que aparecia no meio da mata.

Acordei com minha mãe me cutucando e aos berros:
- Acorda, ajuda seu pai, ajuda, tá tudo pegando fogo, vamos fugir!
Fui correndo pra fora e já na varanda pude ver o vento levando todo o fogo pela mata rasteira em tudo que nos cercava. A fumaça ao longe cobria a vista da rua, do mar, das coisas, mas ainda assim, não havia perigo de pegar todo na casa.
- Já liguei pro bombeiro, diz que é assim mesmo(combustão natural), pra ficar calmo – disse meu pai na tranqüilidade.
Enquanto minha mãe gritava:
- Meus Deus, isso não pode, vamos fugir!
- Calma aí mãe, fica tranqüila, isso aí é tudo mato seco e não está alto, não vai chegar aqui, calma, calma.
- A fumaça vai matar a gente!
- Vai nada, nem tem fumaça aqui, tá longe, calma - dizia eu.
Meu pai olhando pela varanda disse:
- Rapaz, tá pegando fogo no quintal do Hélio e o “mondrongão” tá na praia.
-Meu Deus, e aquelas crianças, Jesus? – disse minha mãe mais nervosa ainda.
Quando saímos pra rua vimos a vizinha debaixo, cunhada do “mondrongão”, levando as crianças para sua casa, o que nos deu um grande alívio.
Minutos depois um carro preto em alta velocidade sobe a rua de barro e aparecendo por entre a fumaça da queimada, e parando em frente às terras de meu pai, sai ele, nervoso, de sunga, irritado e visivelmente embriagado: ”mondrongão”.
Desce ele do veículo com sua esposa e mais um casal de amigos (que também moravam no condado). Correram, pegaram galhos verdes, foice e conseguiram apagar o fogo que chegava bem próximo da casa que ele estava e já queimava a antena parabólica e fios.
Após o feito, esbaforido e mancando, “mondrongão” e seu amigo “Demir” vieram até nós e disseram:
- Tocaram fogo nisso aí “porra tudo”, que que tá acontecendo? Quem viu aí?
Mal pararam para fazer esse comentário e continuaram a subir a rua às pressas.
E eu fui atrás, sem entender direito o questionamento dos dois,levando um balde d’água e achando que eles tinham uma solução para o fogo.
Passamos pela fumaça até chegar em uma casa humilde, pequena, no baixo do barranco, sem laje, telhado antigo e quebrado, sem porta “no tijolo”.
Os dois pararam em frente a casa e “mondrongão” gritou com a primeira criança que viu.
- CHAMA LÁ TEU PAI!
Minutos depois aparece o “mais conhecido que moeda de 1 real”, Zé Antonio.
Negro, aparentemente 35 a 40 anos de idade, baixo, magro, sem camisa, descalço e com uma bermuda jeans surrada e a cara de sono.
- PORRA, Zé, “que que” tu tocou fogo nessa porra toda ai, Zé? - disse “mondrongão” aos berros.
Zé, ainda meio tonto, sem entender perguntou:
- Fogo de quê, Sr. Jorge? (fiquei sabendo o nome de “mondrongão)
- Fogo de quê? Fogo de fogo porra, tá aí “lambendo” tudo, “carai”! Foi tu que tocou, não foi?
-Sr. Jorge, que raio de fogo é isso que tu tá falando, “homi”? Tá “bebu”?
- PORRA, Zé olha aí “pros lado”, você tá maluco, Zé? (pegando o homem pelos braços e girando-o 180 graus para ver a fumaça que vinha do pasto e o fogo que se aproximava de sua casa.
-Misericórdiaaaaaa, Jesus, Maria, José, meu Santo Antônio, que diabo é isso?- disse Zé Antônio nervoso.
- É disso que tô “falanu” Zé, desse “carai” de fogo que tu tocou aí nessa porra de mato, Zé!
Foi nessa hora, então, que a “ficha de Zé Antonio caiu”
- HEIIII, como é que é? Tu ta aí “falanu” que eu que “atoquei” fogo nisso tudo, rapá?
- E NÃO FOI, ZÉ?
- EU?
- Ô, “carai”, quem mais havia de ser? Dê dinheiro pra tu, Zé, mas não te dê um “frósforo”, que tu “ataca” fogo “mermu”!
-“Ocê” é malucooo, Jorge? Que eu tô aqui dormindo rapá, desde meio dia, ”tavo” nem “sabenu” dessa desgraça aí fora, rapá!
- A casa então, se deixar, pega fogo com tu dentro dormindo, Zé?
- Rapá, eu “tavu bebu” dormindo e tu vem falar que eu “atoquei” fogo nisso aí?

A confusão estava armada, meu pai do meu lado chegava com mais balde de água, minha mãe, as vizinhas de baixo com vassoura, a mulher de “mondrongão” com a mulher de “Demir” e mais umas 8 mulheres que saíram de dentro da casa de Zé Antônio, um bate boca danado de quem foi, quem não foi que tocou fogo.
E “mondrongão” insistia:
- Quem foi, Zé? Fala que foi você logo, então!
- Foi o DIABO que “atocou” fogo nisso TUDO - disse aos berros Zé Antonio.
A fumaça entrava pela casa de Zé Antonio e mais umas 5 crianças saiam lá de dentro chorando.
- Zé, pelo amor de Deus, semana passada teu filho tocou fogo aí no teu quintal e saiu “alambendo” tudo pros “lado”, Zé, e não foi ele?
- Rapá, isso foi semana passada e eu dei foi uma surra no moleque tão grande que quando acende o fogão pra cozinhar o garoto corre pro quarto pra chorar. Mãe dele tá até pra levar o “muleque” no “psicórogo” e você vem dizer que foi a desgraça do “mininu”?
Ao passo que a confusão estava armada, minha mãe tentava explicar as duas das mulheres - que também estavam do lado de “mondrongão”- que isso poderia ser uma combustão espontânea na mata, devido ao mato seco, muito calor, vidro, papel na mata, lata e etc..
- Como que é, Dona Janete? “cãobutao” de quê?
- Não filha, combustão espontânea, o fogo se inicia sozinho.
- Pelo amor de Deus, eu tô pra mais de “quarenta anu” morando cá pra dentro, nunca que vi “fogo que se a pega sozinho”. Isso aí foi Zé Antônio e essa “família de lacraia” dele que vieram morar aí pra dentro, cambada de BICHO - dizia a mulher aos gritos - apontando pras outras que estavam em volta de Zé Antônio.
Minha mãe tentando explicar o fenômeno para a mulher e “mondrongão” tirando a camisa pra sair “na mão” com Zé Antônio.
- Vem que eu te arrebento, Zé - com as mãos fechadas em punho.
Meu pai até então quieto, pergunta:
- Mas é pra SABER QUEM FOI ou é pra Apagar o FOGO?
- Não, Sr. Fernando, mas tem que saber – disse “Demir”.
- Mas enquanto se quer saber, o fogo tá pegando lá no poste da rede elétrica, aí a gente fica sem luz, sem água e sem saber quem foi que tocou o fogo. Tá bom da gente ir lá apagar, né?
Todos se calaram, viraram os olhos pra baixo da rua e viram o fogo subindo pelo poste de madeira que segurava um enorme transformador.
- Mas aquilo ali é poste de Eucalipto, rapá, aquilo não pega fogo não – disse “mondrongão”.
- Pois agora vê, que que tu entende de mato, rapá? ”Que que tu entende de ‘pranta’?” disse Zé Antonio rindo.
- Bom, vocês ficam aí pra saber quem foi, se eucalipto ou cimento pegam fogo, que eu vou tentar “safar essa onça” com meu balde - disse meu pai me chamando pra ir junto já caminhando pro poste.
Desci com ele e meu balde enquanto o povo todo vinha descendo com foice, pau, galho verde, vassoura, regador, criança correndo com camisa amarrado no rosto parecendo “ninja” e tudo mais.
Todos juntos conseguiram apagar o fogo no poste e, já por essa hora na empolgação, o povo foi batendo, jogando água, cortando e o fogo na mata já ficava bem menor e dava sinais de fim.
O fogo queimou todo o mato seco, inclusive do campo de futebol improvisado ao lado e assim foi terminando o incêndio sem queimar nenhuma casa.
Já se findava o problema e “mondrongão” ainda resmungando pela rua ia descendo pra sua casa – melhor, de seu irmão - e dizendo:
- Meu carro é de álcool rapá, se chega fogo perto ele “exprode!”
Minutos depois, Zé Antônio passa com cara de furioso pela rua enquanto eu e meu pai sujos, com Pé queimado, fedendo e suados ficamos sentados na calçada bebendo água e minha mãe tomando seu remédio pra acalmar.
- Tá vendo aí, filho mais novo, que emoção é morar por aqui?
- É, tô vendo aí que “sanhaço” – disse aos risos.
- Não paga nada pra praticar um exercício físico, viu? Leva balde, joga água, corre, abafa, bate com galho, com vassoura, sobe a rua, desce, uma maravilha e, se quiser, ainda arruma uma luta de “diu jitsu” no meio mato, olha que maravilha!
Passados mais alguns minutos de bate papo, água gelada, risos e, voltado a respirar o ar puro, Zé Antonio volta subindo pela rua, com a cara bem melhor, olhos vermelhos, rindo, visivelmente embriagado novamente, pára em frente à escada e diz:
- Deus sabe o que faz né, Sr. Fernando? Agora tá é cheio de preá e cutia correndo pela rua, já peguei três e tô voltando com “meus menino” pra pegar mais, com o fogo “eles saiu tudo da toca!”
- Mas o que Deus tem com isso, Zé?
- Há, tocou fogo aí no mato ué!
- Mas você não tinha dito que foi o diabo que tocou fogo nisso tudo, rapá?
- Vixiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii,disse, né? Sei quem foi não ó, mas hoje lá em casa tem carne pra dar e vender, ô, “grória”, “inté!” Vou trazer um pedaço pro senhor!
E foi cambaleando pela rua...
- Tá vendo, até carne se ganha nesse lugar, por falar nisso, repete aí filho: paca, tatu, cotia não
- Pra quê isso?
- Repete ué.
- Paca, tatu e cotia não.
- Cotia não.
- Hã?
- Eita, meus tempos de criança! - disse rindo.