A CHEGADA AO RIO


A CHEGADA AO RIO


Ainda por volta de 14 horas e 30 minutos o ônibus executivo, de ar refrigerado e cheirando a novo chegava à rodoviária Novo Rio vindo diretamente da região dos lagos.
Da grande janela eu avistava um domingo ensolarado nas ruas, os vendedores com seus tonéis de bebida correndo entre os carros, a fumaça dos caminhões, o velho sujo sentado abaixo da escrita “GENTILEZA GERA GENTILEZA”,e eu a pensar
-será que gera? O Rio de Janeiro continua lindo?
O ônibus vira para finalmente chegarmos ao desembarque, tiro de cima de mim a coberta, o saco de biscoito e a água mineral. O ônibus para, todos se levantam, arrumam seus pertences e descem.Ando calmamente pelo corredor e chego próximo à porta, assim que coloco meus pés no chão sinto aquele” bafo quente”, que me dá as boas vindas.
O calor, a gritaria, o corre-corre, as mochilas, as bolsas de viagem, sai pela esquerda no meio da confusão do passageiro que não encontrava sua mala e fui caminhando com minha pequena mochila nas costas, óculos escuros embaçado pelo suor que meu rosto produzia, e assim fui por dentre o povo cortando o interior da rodoviária para -então sim-aguardar o ônibus que me levaria a minha residência, do outro lado da pista sentido zona norte.
Atravessei a passarela e ao chegar do outro lado senti minhas costas molhadas pelo suor, as axilas, o rosto, o peito, os braços...
Tirei os óculos escuros, passei a blusa no rosto e continuei a caminhar.
Paralelo ao Cais do porto aquele povo todo aguardava suas conduções dividindo espaço com as barracas de doce e biscoito.
Esperei alguns minutos e uma van -que também me servia - passou, não pensei duas vezes e fiz sinal.
Transporte coletivo secundário vazio, eu e mais uma senhora - bem acima do peso - que estava ensopada de suor, ofegante, respiração acelerada pediu ao motorista pra abrir as janelas. Esse com uma cara de quem comeu e não gostou, começou falando sozinho e terminou a ela:
- Brincadeira “heim”,assim é difícil... Só abrir, a senhora não tem mão não?

Eu ali sentado ,ao lado oposto do motorista na última fila de bancos, me levantei e abri as janelas enquanto a senhora exaltada dizia com sotaque nordestino:
- Vá pro inferno seu capeta, nem pra abrir uma janela?Tenho “astrite” e artrose seu sem vergonha,pense em homem ignorante?”vixi”.
O motorista fez que não ouviu e continuou a dirigir naquele lento “cata-cata” de gente nos pontos, a cada 300 metros ele diminuía a velocidade, piscava o farol algumas vezes, e outras parava para pegar mais passageiros.
Quieto eu observa as ruas pela janela suja da condução, as pessoas correndo, os ônibus lotados, os vendedores, as famílias vindo da praia, o vendedor de churrasquinho, as dezenas de barracas de açaí, suco, x - tudo, lingüiça, bebidas, bucho, camarão, etc.

Avenida Brasil de grandes buracos e deformações no asfalto, ao lado dos pontos a sujeira que tomava conta de sacos de lixo, copos de açaí a pneus de caminhão estourados, no lento percurso, outra parada, mais passageiros entrando, mais calor, o vendedor se aproxima, tiro um real do bolso e compro uma água mineral.
Continuo observando a pista, os grandes galpões vazios, à venda, alugando, uns queimados outros abandonados, os barracos a beira da estrada, as favelas, o valão, o funk carioca tocando em frente à casa de borracharia, as vielas, a sujeira, o cavalo magro, um ou dois colchões queimados fechando uma rua, crianças sujas correndo sem roupa, o cachorro atropelado, as senhoras fazendo churrasco na laje e se esbaldando com água da mangueira ao som do bom e velho pagode “...deixo a vida me levar,vida leva eu...”

De repente me flagrei a pensar em tudo isso, e assim me passava, -como um filme na mente-, essas palavras que, juntas, formam esse encadear de idéias que agora escrevo.
Pensamentos que ali tive, naquele trajeto até minha casa, comparei - ainda que inconscientemente - ao lugar de onde eu acabara de chegar, daquele vento gostoso que passa o dia inteiro pelas ruas, daquele cheiro de mato, o cercado por montanhas verdes, as ruas limpas, uma cidade tranqüila onde os moradores estão mais preocupados com as construções ilegais em área ambiental do que com o “Zé bob” que se deu mal na novela das 8h.
Uma cidade que ainda se encontra longe do caos da violência dos grandes centros urbanos, cercada de lindas praias, um ambiente gostoso de se viver aonde, ainda, se pode caminhar tranqüilo, correr, andar de bicicleta e pouco ouvir ou ver de assassinatos, crimes bárbaros e estórias tristes de violência. É pensar em andar tranqüilo pelo seu bairro sem medo de ser encontrado por uma bala perdida.
Perdido -dentro de meus pensamentos-, não reparei que a van já estivera cheia e que um senhor estava na minha frente, de cara feia, falava
- Da licença aí grande, “deixa eu” chegar ai.
Disse acanhado
- Opa, foi mal “mais velho”, vê se da pra passar!
Encolhi-me, levantei as pernas jogando-as pro lado direito, ele passou, sentou e disse:
- Calor é esse “neguim”? ninguém “guenta” isso não, ainda bem que hoje tem jogo do “mengão”.

Não entendi bem a colocação dele, muito menos o fato do jogo de futebol minimizar a alta temperatura, mas concordei:
- É verdade!
Depois pensei comigo em silêncio,
-Deve ser por que com o jogo de futebol ele tenha um motivo pra beber, cerveja é gelada, refresca...
Enfim, pensamentos abstratos à parte voltei a pensar na vida, no passeio, no rio e principalmente no que quero pra mim, pra minha vida e meu futuro ao lado de uma senhora que goste de dançar comigo, que ria das nossas graças e me faça feliz. Pensei a que me proponho nessa vida, se não escolhi nascer, posso escolher por onde andar, onde envelhecer, e sobre tudo onde e com quem ter uma vida saudável e tranqüila.
E tive a nítida certeza que onde vivo hoje não é mais o lugar saudável e tranqüilo que meus pais viveram há 40 anos atrás -embora seja o mesmo-
E esse, daqui a mais um tempo, não será mais o que hoje representa, como dizia o pensador “Nenhum homem entra duas vezes no mesmo rio.” E meu “rio” não era mais o mesmo.
Olhei pro lado e percebi que já estava em cima do meu ponto, e nem vi chegar, gritei pro motorista que ouvia um som sertanejo.
- “OPA MOTORISTA”,vou ficar no próximo ai, em frente à antiga loja de carros.
Ele olhou pra trás
- Já é irmão! É nós!
Eu
- Valeu, “brigadão”, quanto é?
- “4,00 conto”, fiel
- Beleza, segura aí.
- “É nós”, fica com Deus “na disciplina” meu “peixe”
Coloquei a mochila nas costas, fui andando, e pensando sobre gírias, mas isso é “papo pra outro desenrolo”.




HUGO MENDES GUIMARÃES

Comentários

  1. Finalmente resolveu expor tuas histórias? Volterei mais vezes! Abração!

    Thiago Mattos

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  2. Esse caos da brasil ai nao tem jeito irmao.. rsrs

    parabéns pela historia!

    dá um passeio lá pelo complexo da maré.. largo do itararé.. jacaré.. manguinhos.. rsrs
    enfim.. dá um rolé lá pq jah vi q podem sair ótimos casos.. rsrs

    Abraço irmao!

    Thiago Silva

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  3. Hugo
    Melancólico para caramba esta sua crônica. Daqui de longe - agora - vejo sempre isso também. Apesar de morar numa capital - Recife - também olho com melancolia para o Rio de Janeiro...
    Mas não tem jeito, amo muito Nova Iguaçu e é para lá que sempre quero voltar!

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  4. cezar...é pra la que tambem sempre vou querer voltar é nosso lugar
    nossa terra
    mas sim, nosos olhar muda quando estamos fora
    e chegando entao depois de um tempo...
    tive essa ideia dessa cronica
    gratooo seu comentario irmao

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