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terça-feira, 15 de março de 2011

Conto da Bruxinha


Sou filho caçula, raspa do tacho, ‘última gota’, temporão, sabe como? Somos um total de cinco irmãos, dois homens e três mulheres. Meu irmão com idade mais próxima tem 10 anos a mais que eu. Confesso que isso me serviu para muita coisa boa na vida. Primeiro, por ter influência nas coisas boas da vida. Boa música, poesia, leitura, amor, ‘dicas para se dar bem’, sem contar todo o zelo, carinho e ternura. De uma forma ou de outra, tive bastante gente para me ‘espelhar’. E para isso, nada melhor que irmãos. Segundo, por que tinha acesso aos amigos deles - mais velhos, claro! - ainda novo, e isso também era muito bacana... Poder participar, conversar, observar... (Acho que muito do meu jeito de observar vem daí. Não tinha muito a dizer e era envergonhado, então os observava quieto. Idéias, poesias, pontos de vista...)

Na época, duas de minhas irmãs, que ainda moravam conosco, tinham inclinação para religiões esotéricas. Lembro-me de que quando eu era novo, uma delas viajou para a Índia. Quando voltou, seu quarto ficou tomado por ‘coisas sinistras’ pra minha cabeça de criança...
Era imagem de Buda sentado em cima de um monte de moedas e segurando incenso; era elefante de ferro virado de costas pra porta; era essência de baunilha, pote d’água do Rio Gandhi. Orações, livros com imagens hindus, xamãs, receitas... Tinha até livro dos sonhos. E também uns tecidos indianos pendurados, finos e coloridos, uns desenhos medievais, estrela de não sei quantas pontas na parede, etc.
Minhas irmãs frequentavam religiões que usavam fantasias e defumadores, que faziam danças estranhas... Era tudo muito misterioso e eu gostava disso.
. Minha avó sempre foi espírita e, de uma forma ou de outra, ela e minhas irmãs sempre tinham ‘figurinhas para trocar’, nesse sentido.
. - Vó, acho que fulana tem inveja de mim, ta de ‘olho grande ‘nas minhas coisas... - dizia uma delas.
- Coloca o olho de boi atrás da porta, corta a cebola em quatro pedaços, amarra no pano de prato e enterra no quintal. – Respondia minha avó.
Hoje em dia, quando ouço o ditado “Quem não aguenta com mandinga não carrega patuá!”, sempre lembro essa época.

Era aniversário de uma amiguinha da rua. Ela fazia nove anos e fomos convidados. A festa foi estilo Haloween, cheia de morceguinhos de papelão, decoração preta e roxa, máscaras, capas, dentes de vampiros e músicas de terror, além de Xuxa, claro! Foi bem bacana... Bolo de chocolate, refrigerantes, brincadeira da cadeira, da estátua, da múmia e, por fim, ganhamos de lembrança uns monstrinhos de plástico e umas bruxinhas. Dessas coisas que se coloca na ponta do lápis - nem sei se existe mais isso. Fiquei p... da vida quando fui pegar o meu e não tinha mais do monstro, só tinha da bruxinha... Peguei o lápis com a bruxinha na ponta e fui pra casa de mau humor.
Usei aquele lápis por algumas semanas, e com ele fiz os deveres da escola todos os dias à tarde, após o almoço, na mesa da sala de casa.
Várias vezes tentei, em vão, arrancar aquela ‘coisa ridícula’ do meu lápis, mas não conseguia. Num desses dias, fazendo dever, não conseguia resolver uma questão de Matemática e, nervoso, bati o lápis e o joguei na mesa. Depois me levantei e fui pegar água na geladeira.
Ao voltar, peguei o lápis e tornei a fazer o exercício. Pra minha surpresa, a tal bruxinha tinha sumido da ponta do lápis. E tive um surto, um misto de alegria (porque não queria mais aquilo) - e estranheza (onde foi parar aquele troço?). Procurei a sala inteira, olhei no chão, na mesa, na escada e nada! O treco simplesmente sumiu...Semanas se passaram e fui esquecendo aos poucos do lance do lápis.
Um dia, chegando da escola, entrei em casa e não vi ninguém.
– Mãããee! Vóóóó! Shiiiiirleeeey! Jaaaannn!
Ninguém me respondeu... Passei pela sala, olhei quarto por quarto e estava tudo vazio... Sala de jantar vazia, cozinha vazia... Subi, olhei nos dois quartos e não vi ninguém. Fiquei meio assustado, mas fui pro meu quarto trocar de roupa enquanto comia uma banana. Desci e fui pra sala, mais uma vez procurando por alguém, mas ninguém me respondia... ‘Sim, a casa está vazia’, pensei. Deitei no sofá, fiquei algum tempo olhando pro teto e, antes de ligar a TV, comecei a escutar vozes cantando bem longe, tipo mantra...
Sentei e fiquei tentando identificar de onde vinha aquele som. Levantei e fui caminhando lentamente na direção copa. O som do ‘cantigo’ foi aumentando. Consigo identificar que vem da cozinha e caminho pra lá mais rápido. Quando chego lá, não tem ninguém, mas o som está alto... Som de mantra... De oração... Já entrando em desespero, gritei:
. - MÃÃÃÃÃÃÃÃEEEEEEEE!!!
. - Daí ouço a voz da minha irmã me chamando:
. – Xiiii!!! Huguinhoooo! Estamos aqui atrás no quintal... Silêncioooo!!!
. Putz! Pirei!!! Fui pra área de serviço e na porta, que dá vista pro quintal, vi minhas irmãs e minha avó agachadas no chão, de mãos dadas, em forma de círculo. Dentro do círculo, uma pequena fogueira, um copo d’água e uma vela. E minha avó gritava algumas coisas macabras, tipo:
. – “ZRATUSTA”“Tá quebrado todo o mal!”, “Sai daqui, alma pobre de luz!”, “nome de Jesus Cristo”...
Elas pediram pra eu me afastar e eu voltei pra sala - bolado, claro! - enquanto elas continuavam o ‘ritual’.
Liguei a TV, fiquei mais calmo por ter descoberto de onde vinha o tal som e também por tê-las encontrado. Ao mesmo tempo pensava:
- Cara, só tem maluco na minha família...
Estava inquieto... Não consegui. Dei a volta pela garagem, me escondi atrás da pilastra e fiquei observando. Fui, na ponta dos pés, e cheguei bem perto. Elas estavam de olhos fechados rezando o Pai Nosso. Eu, mais do que curioso para saber que diabos era aquilo que pegava fogo. Minha avó, antes que a ‘coisa’ acabasse de derreter, jogou “água benta” em cima. Aí elas soltaram as mãos e disseram:
. - Acabou!!! Está pronto!!!
E me viram...
- Huguinhoooo, não disse pra você não ficar aqui, menino? - Disse minha avó.
- O que é isso aí, vó?
– Nada, filho... Tentaram fazer maldade pra sua irmã, mas já quebramos o feitiço!
– Maldade??? Feitiço???
- Nada filho! Fica tranqüilo... Dá um abraço aqui na avó! – Falava ela com os braços abertos -
Abraçado com ela eu olhava praquela coisa estranha no chão e pras minhas irmãs com lágrimas nos olhos, emocionadas.
- Que feitiço, vó???
- A gente chama isso de “Vudu”... Fizeram Vudu pra sua irmã... Por isso ela sentia essas dores estranhas! Achamos o boneco escondido atrás da moldura da foto de sua falecida avó, mãe de seu pai.
- Nossa, que sinistro vó!
- Pois é... Mas agora “quebramos o trabalho”... Está tudo bem, vamos lá pra dentro, o almoço já esta pronto...
Antes de entrar, curioso como nunca estive, abaixei, olhei bem de perto e vi, derretido, o resto de uma boneca com chapéu preto e roxo.
– HEEEEIIIIIIIIIIIII!!! Isso é a boneca que estava no meu lápis, vó!!! – Gritei, enquanto elas caminhavam pra cozinha
– Como é que é? Que brincadeira é essa Huguinho?
- É sim!!! Olhem aqui, aquela boneca que ficava no meu lápis, que eu perdi na sala... Aquela que eu ganhei no aniversário da Giovanna... Pô... Nossa, vocês queimaram ela, meu Deus!!! (naquele momento eu pensei que elas não eram muito boas da cabeça não,era inacreditável!)
Minha irmã veio, tomou a boneca queimada da minha mão e disse, confusa:
– Nãããooo!!! Podem olhar aqui... Ela tinha até óculos iguais aos meus, mesma armação e tudo... O formato do nariz... Tudo! Sim, era eu!!!
. – NO CASO, você é uma bruxinha? – Perguntei, mais confuso ainda
– Não! Claro que não, Huguinho!
Não aguentei e repeti, impaciente:
– Isso era a ponta do meu lápis, da festa de Haloween da Giovana, que eu perdi na sala quando bati com ele na mesa, merda!!!
- Não xinga Huguinho! E como isso foi parar atrás da foto da falecida avó, na parede? – Perguntou minha avó.
- Eu lá que sei, vó?!quem mexe com isso “de feitiço”são vocês -respondi.
Minhas irmãs só fizeram rir,mas rir de ficarem vermelhas,sem conseguir mais falar, apenas as gargalhadas apontando pra “Ex ponta do meu lápis” toda derretida,minha cara de bobo e minha avó com uma cara meio de “paisagem”
- Eu não acredito que tocaram fogo nisso,minha mãe sabe disso?
-Ninguem pode saber disso Huguinho, só a gente, ta? Por falar nisso, vamos esquecer todo esse mal entendido ta? Vem,vamos pra dentro.

-Mas e agora que descobriu que não era nada desse tal de ‘Brudu’
-VUDO meu filho
-Então,mas e agora que sabe que não é mais?? Vão ter que fazer “outro treco desses ai” só pra desfazer o outro Né?
Minha irmãs rindo sem parar,eu sem entender direito,entramos para almoçar,minha vó dizendo para que aquele episódio não saísse dali,ninguém mais poderia saber,etc..
Bom, não só a minha família ficou sabendo, meu pai e meu irmão ficaram zoando por um bom tempo minhas irmãs e tudo que fazia alusão ao caso:
-Pai , tem uma lagartixa seca morta atrás da porta do banheiro
-hiii vê lá Hugo,deve ser o tal do ‘vudu’ de novo, vê com quem esse se parece,reza e toca fogo – dizia rindo –
-FERNANDO VOCE BRINCA COM COISA SERIA – dizia irritada minha avó pro meu pai
A família toda soube do fato,os amigos das minhas irmãs,as amigas da minha mãe,veio gente pessoalmente pra saber, pra querer ver a ‘maldita’ bruxinha queimada.(que eu não queria jogar fora),queriam saber se tinha semelhança mesmo com minha irmã,onde vendia uma ‘sem estar queimada’só faziam rir,motivo de chacota total no bairro.lembro-me,ainda,anos mais tarde, na época inicial do funk,sempre lembrávamos desse episodio quando cantávamos na rua:
- Boneco de pano, macumba ou VUDU,quem não for da RAÇA FLA...... VAIIII TOMAR....
Seja lá como tenha sido,mas sei que funcionou, não lembro mais da minha Irma continuar “sentindo aquelas dores” que,supostamente viriam do boneco,tempos depois largaram o esoterismo,mudaram as “amizades ruins” mas sempre respeitavam os conselhos de minha avó.
-vó a senhora viu o brinco de ouro,aquele de argola grande? Já procurei tudo -perguntava uma de minhas irmãs
-já pediu pra “São longuinho” filha?
-já!!
-Já deu os três pulinhos?
-putz,esqueci,pêra ai – pulou 3 x
- Agora volta a procurar que com certeza você vai achar
E não é que achava mesmo? Até hoje eu,já adulto, também faço isso e também sempre acho.Tomo boldo pra enjôo ou ressaca,não deixo o chinelo de cabeça pra baixo,evito dormir com a cabeça “virada pra rua”, entre outros tantos ensinamentos antigos que minha adorável avó nos deixou,heita saudade.
Guarda chuvas aberto dentro de casa? Nem pensar,dá azar! :D

Hugo Mendes Guimaraes
12-03-2010

segunda-feira, 14 de março de 2011

Do pensar Noturno



A cigarra canta rouca no quintal escuro
Coberto de sereno da estação passada.
O olhar para as montanhas que so me mostram
o quão belo e perfeito é tudo isso que deus formou
Esse cheiro de vida e Mato que te toma sem pedir licença,
corre por todo seu corpo ,pulmão,coração,narina e nariz,
sorriso e atriz te faz ser,
assim,cantado e encantado
como o singular da vida nas esteiras do sentimento
e poesia que te tomam
toda vez que seus olhos encontram um fugir depressa
de si e de seus pensamentos por toda simplicidade
tão bem complexada dentro de um gosto de mar e uma vida por se observar.