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domingo, 13 de fevereiro de 2011

DO CASAMENTO E DA VIDA MILITAR



Era um daqueles dias em que tudo parecia dar errado... Acordei de mau humor. Me atrasei. Cheguei na escola e fui barrado. Fazia um calor dos infernos. Deixei café cair no uniforme. O ônibus quebrou na volta. Cheguei em casa cedo e tive que explicar pros meus pais o que havia acontecido... Minha mãe super irritada com o almoço, com o que faltava fazer, com a bagunça da casa, com a sujeira... Reclamava de tudo! Da qualidade da batata que meu pai acabara de comprar ao gosto da água no galão.
Suada... Esbaforida... Eu via no seu rosto o suor escorrer enquanto abria o forno e gritava irritada:
- Teu pai também me compra um frango horrível desses, o treco não assa de jeito nenhum, coisa ridícula!
Eu ali, olhando aquela cena. Meu pai tirando das costas mais 4 sacolas com frutas e legumes e pondo no chão.
- É... O dia está quente... São Pedro tá “chamando no maçarico”!
- Maçarico tá na sua cabeça, FERNANDO GUIMARÃES, que me compra um chuchu desses!!! Disse ela, mais irritada ainda (quando o chamava por nome e sobrenome, era por que a coisa estava feia...)
Fui me dirigindo para a sala pensando em como devia, de fato, ser difícil casar, conviver juntos, enfim, no auge dos meus 16 anos isso era uma questão embaraçosa... Pensar nisso, ver dias como esse dentro de casa e que deveriam ter em qualquer outra. Enfim, falei:
- Pai... Sinistro! Você é todo paciente, né? Tranquilão aí, não se estressa e minha mãe desse jeito com a gente, cara... Pô... Como é que pode isso? Reclama lá também, pô!
- Gudinho, - como ele me chama - vou te contar uma coisa:
- Coé, pai? Vai lançar qual caô agora?
- Com 13 anos eu comecei a trabalhar. Era uma loja de sapatos no centro do RJ. Era o que hoje vocês chamam de Office boy... E cheguei a conferente, sabe?
- Hum?
- Pois então, foi quando eu conheci minha mãe, com 14 anos.
- Sua mãe, pai? Ela não faleceu no parto da minha tia?
- Sim, “deixou de existir “ nesse dia. (Engraçado... Meu pai nunca usou a palavra “morte”.)
Por alguns segundos pensei:
- Meu pai estaria ficando maluco ou estaria me contando uma história sobrenatural? E, no caso, qual a relação disso com o casamento e com o estresse da minha mãe?
- Eu falo da minha segunda mãe: MINHA “MÃE-MARINHA”, A Marinha Do Brasil!
- Aaahhhhh, pai! Já disse que não to a fim de ir pra Marinha, cara!
- Não, não... Fique tranqüilo... - e continuou a história:
- Com 14 anos entrei pra Marinha do Brasil. Fiquei interno 3 anos, muito corri, muito malhei, comi coisas que nunca imaginei comer, fiz coisas que não achava que era capaz de fazer, aprendi a cozinhar, a praticar esportes, a me alimentar... Aprendi até a costurar e a dar brilho no sapato! Aprendi a ‘gíria do mundo’!!! Viajei também o mundo, conheci gente, me especializei, fui a Sargento, Sub-Oficial e, nas prerrogativas de Almirante, fui professor na minha área na Marinha. Fui paraninfo de turma e tudo... Já te contei essa???
- Já pai, essa eu conheço... - disse eu, rindo.
- Pois então... A melhor e a pior parte da minha vida na Marinha você não sabe onde foi. Ou sabe?
- Sei pai... Na Guerra da Lagosta, né? – eu disse, rindo.
- Que Guerra da Lagosta nada! Isso foi moleza! Marcante mesmo foi nos submarinos.
- Humm...
- Fui com orgulho Chefe de Máquinas, Eletricista Oficial, enfim... Fui Submarinista boa parte da minha vida na “Mamãe Marinha”.
- E o que tinha de horrível lá no submarino?
- Gudinho, eu já levei vocês lá quando crianças, você lembra né?
- Sim, lembro.
E nesse momento meu pai liga a TV, junta os sofás de forma a criar um retângulo de uns 4 metros quadrados, ficando nós dois ali dentro, e começa a falar:
- Tá imaginando o calor? Muito quente? Imagina motores, todos os motores, estamos na casa de máquinas, tá agora uns 54 graus aqui dentro, temos poucos metros quadrados, nossas cabeças batem no teto do submarino, pois “aqui” só tem 1,60m de altura... Estamos com muita pressão nos ouvidos, a 200m debaixo d’água.
Meu pai ia falando isso, ao passo que ia aumentando o som da TV. E o pôs no volume máximo!
- PAI, A TV ESTÁ MUITO ALTAAAA!!! - disse eu, quase gritando.
- ENTAO... ESSE É O BARULHO DAS MÁQUINAS TRABALHANDO... É ASSIM MESMO, É O MOTOR - disse ele, aos berros.
- ISSO É COISA DE MALUCO! – gritei.
- AGORA ENTRA NO MOTOR PRA TROCAR A FIAÇÃO, TÁ MAIS CALOR AINDA... VOCÊ BATEU A CABEÇA NO TETO E O CAPITÃO QUER QUE VOCE RESOLVA O PROBLEMA DO MOTOR AGORA. AGORA!!! EU DISSE AGORAAAAA!!!
A TV nas alturas, meu pai gritando, eu gritando mais ainda e – confesso - emocionalmente me senti irritado e com calor.
Minha mãe aparece na sala com uma panela na mão e batendo os pés no chão.
Meu pai desliga a TV, empurramos o sofá pro lugar, ligamos o ventilador e minha mãe diz:
- Fernando, só me faltava essa! Você brincando com o Hugo, DESSE TAMANHO, em cima do sofá, sujando, PRA VARIAR, e ainda por cima estão surdos??? – E deu as costas. E voltava para a cozinha resmungando, enquanto ele me olhava eu perguntei:
- Mas e aí? Onde estávamos? Essa era a parte ruim, né? E a boa do submarino?
- Pois é, filho, a boa é que sua mãe pode fazer o que for que jamais chegará perto do stress de um submarino, a 200m de profundidade, com problemas no motor, um calor de 50 graus, uma gritaria, 4 homens “batendo cabeça” pra reparar o problema e um capitão gritando no seu ouvido.
- NÓS VAMOS MORRER AQUI DENTRO SE VOCES NÃO ‘ SAFAREM ESSA ONÇA’ HOMENS, ISSO NÃO É UMA SIMULAÇÃO, CADÊ A SOLUÇÃO???
- Que situação pai... Isso acontecia com freqüência?
- Bastante, bastante...
- É, no caso, comparando, né? Minha mãe até que...
- Sua mãe é um Anjo - disse, rindo.
- Entendi... Essa é a parte boa, né?
- Também... Melhor ainda por eu ter feito sua inscrição pro Colégio Naval! E veja a calmaria de pessoa que você vai se tornar!
- Vai começar esse papo de entrar pra Marinha de novo?
- Não, pô! É papo de “casamento”... Até isso a Marinha me ensinou – disse, rindo.
- Só faltava essa... Tem que passar pela Marinha pra conseguir casar? Melhor, pra conseguir manter um casamento?
- Eu não disse isso...
- Porra pai, você fez minha inscrição, cara???
- Que privilégio, minha “MAMÃE MARINHA” vai ser a sua também... Seremos irmãos! Que engraçado, né?
- Aahhhh, pai... Na moral, tô legal desse papo... “Permissão para me retirar” - disse eu, enquanto entrava no banheiro e fazia sinal de sentido.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, SOLDADO! - Disse ele, em alto tom, de frente para porta do banheiro.
Rapidamente a abri e, pela fresta, falei:
- SOLDADO NÃO, NO COLÉGIO NAVAL EU JÁ SAIO COMO OFICIAL!!! - E tranquei a porta.
- Tô indo lá agora fazer sua inscrição!
- Você não disse que tinha feito? - Gritei de dentro do Box.
- PERMISSÃO CONCEDIDA, SOLDADO!!! AMANHÃ MESMO DAMOS INíCIO AOS ESTUDOS - disse ele aos risos.
-NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!

10 comentários:

  1. Quem é filho de militar, entende bem essa crônica. Disciplna, paciência, tolerância, treinamentos. Mas a mãe-farda é um privilégio que concedo ao próximo que a desejar... Dispenso essa honra!

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  2. Realmente já ouvi relatos desta prática.
    rsrs
    Não importando se dentro ou fora do serviço, militares agem igualmente.

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  3. É rapá, pelo q conta o teu pai, o casamento só é menos pior que estar derretendo dentro de um submarino estrondoso que pode te matar a qq momento... =) Boa!

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  4. Pensando desse jeito aii.. acho q vou casar e tentar a vida na marinha.. kkkkkkk

    Parabéns malucoooo!

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  5. Hugo
    Muito boa! Divertida e ao mesmo tempo com uma visão bem particular do casamento... mas o que mais me impressionou foi como imaginei toda a história: Como um episódio de Os Simpsons.... kkkkkkkkk vi Dona Janete como a Margie, o Gudo como o Homer e vc, claro o Bart Simpson...

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  6. Muito boa!! =D

    A história de vender sapatos eu já tinha ouvido do próprio, mas - mesmo com todo o talento dele em fazer minutos passarem graciosamente - além de completa, sua narrativa foi muito mais divertida!

    Dá pra publicar essas gracinhas hein, ratão?

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  7. Em tempo: se eu pudesse voltar no tempo, teria me esforçado para entrar no CPOR, pelo menos =)

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  8. Realmente as histórias do Sr. Guimarães são as melhores... solicito que o escritor áulico relate neste, a história da SIRENE kkkkkkk, só de lembrar... Ratifico mais uma vez, o seu dom para relatar com detalhes tão ricos, as histórias que permeiam o seu SER. Amplexo Hugão!

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  9. Booooaaa!!! Kkkkkkk! Agora tem q atender aos pedidos dos 'fãs'... Rsrs.

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  10. kkkkk ñ consigu para de rir ,boa
    /) /)
    (:.: )
    (.)(.)

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