Meu primeiro Violão



MEU PRIMEIRO VIOLAO
- Fala irmão, aí... Tu toca violão há quanto tempo? Aprendeu sozinho?
Disse o rapaz numa festa que eu estava com meu instrumento no colo, dia desses, enquanto saboreava uma cerveja gelada no intervalo de uma canção e outra.
E nesse momento passou-me como filme na cabeça, mais uma vez, minha adolescência na praça perto de casa, no banco, à noite, os amigos, conversas, amores, paixões, madrugada adentro, primeiros porres de vinho (daqueles garrafões de 5 litros), muita música, ventos frios do meio de ano, poesias avulsas gravadas num daqueles pequenos gravadores, de fitas menores ainda, - como lembro disso tudo-.
Das paixões platônicas, das descobertas, dos papos filosóficos, do que queríamos ser, fazer, como desejaríamos estar com a idade que agora temos, engraçado escrever isso hoje e pensar que o tempo passou.
Lembro-me que trocávamos qualquer discoteca, festa, shows por aquela praça numa sexta à noite. Todos se arrumavam e se encontravam naquele especifico banco, o “ratátá” pra comprar o vinho, os violões, as bicicletas encostadas, as meninas, os meninos, uns sentados no banco, outros no ferro que envolvia um retângulo no chão e servia também de banco (até hoje não sei pra que servia aquilo, senão pra sentar e apoiar pedal de bicicleta).
As primeiras madrugadas que passamos acordados noite adentro, choros, gargalhadas, brincadeiras, beijos, e também meus primeiros acordes no violão.
- Coé cara, me ensina a tocar violão aí.
E o mais velho do grupo:
- Pô, é que meu violão é pra canhoto, ‘ arruma’ um que eu te dou uns toques.
E voltou ele a tocar, fixado os olhos na menina que ele gostava enquanto essa conversava com outro.
Época meio complicada pra nós, sem dinheiro, adolescentes, sem saber o que fazer, curso pré-vestibular, nervos a flor da pele, pressão dos pais...
- Só quer saber de ficar nessa porra de praça enxugando a garrafa de vinho? Sai disso meu filho que isso é ‘rabo de foguete’ (dizia meu pai)
Mas foi a ele mesmo que pedi, no alto dos meus 17 anos, meu primeiro violão.
- Pô, Gudo (apelido de meu pai), queria aprender a tocar violão.
- É bom, e por que não aprende?
- É que tenho que ter o instrumento. o canguru , namorado da minha irmã, que é musico, me disse isso, disse que ate me ensina, mas só quando eu tiver o meu.
Meu pai com aquele olhar de quem pensa, -‘sobrou pra mim’
-Meu filho, eu tô tão duro e numa maré tão ruim, que se eu montar um circo, o anão cresce (lembro-me, claramente, dessas palavras).
Fiquei meio desanimado, continuamos a conversar e ele me contou das dívidas, das contas do mês, do meu curso pré-vestibular etc.. Etc...Etc... , mas no final comentou:
- A não ser que você queira ir à feira comigo no domingo, lá em Areia Branca...
De repente a gente arruma um violão barato lá pra você, o que acha?
Não pensei duas vezes e domingo ensolarado pegamos o famoso ônibus São Jorge para a feira, lá chegando vi de tudo, barracas de cd, lingüiça, cordões, camisas, banana, relógios, fios, conectores, gente vendendo cachorro, gato, trocando passarinho, vídeo game, peças de carro espalhadas pelas lonas no chão, barracas de caldo de cana com pastel.
- é 1 real, é 1 real
Aquela ‘muvuca’, gente de tudo que é tipo e tamanho, com seus pertences na mão para trocar e vender, era tanta coisa que eu me vi impressionado, me perdi do meu pai e minutos depois pude avistá-lo numa barraca de laranja mordendo a fruta com casca e tudo e chupando:
- essa tá boa Zé, tá quanto?
- R$3,00 a dúzia, chefe.
- E pra quem tá ‘rezando pra chover’ sai a quanto?
- Sr. é fogo (disse rindo), dá R$2,00 aí na dúzia
- Safo. Coloca duas dúzias então e me dá essa banana também que tá com a cara boa.
Encheu a bolsa, me aproximei dele:
- toma aí gudinho, leva pra mim!
Fui andando com aquela bolsa pendurada nas costas no meio do povo, meu pai parando em tudo que era barraca já me deixava nervoso:
- Fala ai camarada, quanto ta essa chave de ‘grifa’?
-‘4 conto’, chefia
- Não, mas eu queria uma só (disse no tom irônico)...
- Menos de R$2,00 eu não faço não
- Tá safo. Dá pra cá. Faz a de fenda por R$1,00? Te dou R$3,00 aqui, fechado?
- Tranqüilo, segura aí.
Colocou as ferramentas na bolsa junto às frutas e continuamos a andar quando ele gritou lá da frente.
- Hugo, tem um violão aqui.
Apressei-me empurrando o povo e cheguei rápido até lona do senhor espalhada no chão com algumas pecas de vídeo game, fitas, fios, uma guitarra quebrada e um violão velho com duas cordas arrebentadas.
E meu pai disse:
- ‘Tá pra quanto esse violão’?
- R$40,00 chefe. Só colocar as cordas!
Peguei o violão e o vi aranhado, meio quebrado, velho, duro, desafinado, mas lembrei-me de que alguém tivera me ensinado a ver se o braço desse instrumento estava empenado, que era o mais importante,e pude perceber que não estava, fiz cara de quem entendia e disse:
- R$40,00? Dá não moço, ‘brigadão’, é que ele está todo empenado, dá nem pra tocar. Isso ai serve só pra lenha de fogueira.
Meu pai me olhou com aquela cara de quem diz:
- E tu lá entende de violão?
O vendedor então disse
- Faz o seguinte, me dá R$20,00 nele e tu conserta isso aí!
Meu pai se meteu e disse
- É que a gente só tem R$10,00... Senão a gente volta andando pra casa.
- Dá R$15,00 e ‘morreu’ a parada
Demos o dinheiro a ele, segurei o violão com a mão esquerda, com a direita a sacola, e fomos andando enquanto meu pai dizia:
- Mas como você vai fazer pra tocar com isso ai ruim?
- Tá ruim não cara, só colocar as cordas, meti um ‘caô’ pro cara.
- Como é que você faz um negócio desse, rapa? Tá aprendendo isso com quem?
Olhei pra ele sorrindo e disse
- Com ninguém não, pai... Com ninguém não(tu diz que a laranja dos outros é azeda pra comprar mais barato, e ta falando que eu que ‘manobro’ errado rs
E assim adquiri meu primeiro violão, duro, de cordas de aço que acabaram com as pontas do meu dedo, mas não me deixaram desistir. Revistinhas de cifras, dedilhados, e a perturbação com os amigos para me ensinarem alguma música fácil, até o dia que consegui tocar ?Que país é esse??, e nunca mais parei. Aprendi com o pior violão que tinha, com maior dificuldade, mas insisti até conseguir.
- Ou, irmão? Tá doidão? Só, te perguntei como tu aprendeu essa parada, se tem muito tempo...
Achei maneiro, teu violão é show de bola também, fica bolado não. Tá ?quietão? aí depois que perguntei a parada.
Sorri, olhei para o cara e disse:
- É que é uma longa história - disse rindo - enquanto começava a tocar outra música.
HUGO MENDES
03-03-07

Comentários

  1. Tuas manobras são feras!

    vejo um futuro ai nessa paixão...

    parabéns meu parceiro.

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  2. O primeiro violão a gente nunca esquece! Temos ainda algumas figurinhas musicais pra trocar. Nunca desapareça, tecnopoeta!

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  3. Hugo
    Esta história é Clássica. Como são clássicas as tiradas de teu véio Gudo. Lembro-me de que nesta época da pracinha ali do valão, a gente já era mais velho, trabalhando, com um pouco mais de dinheiro para poder tomar uns chopes em barzinhos e sempre víamos vcs ali no banco em frente a casa de Dona Ivone. Bons tempos! Isso é poesia pura!

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